Depositário de comentários, sede do caos, falta do que fazer e onde mostrar, outdoor ao inverso e convite ao velho e bom papo de bar. Tudo isso e mais um pouco de Vida e Cenas, e história a contar.
10.2.08
La Paloma
E agora acabo de ler "A pomba", um romance miniatura, quase um conto. Que expõe o caos interno despertado/revelado na vida de um senhor de meia idade pela visão de uma pomba na manhã de um dia como outro qualquer. A pomba apenas o fita, e faz desmoronar toda a ordem, planejamento, calma, quietude, competência e lógica cultivados por ele no decorrer de décadas de vida.
Repentino, me dou conta de quantas pombas encontramos por aí. Elementos rotineiros do cenário de nossas vidas, mas carregados de tal significação em momentos chave que tornam-se capazes de obliterar completamente com nossas certezas e vida. Coisas comuns, mas postas no momento e lugar certos, são eficazes em nos desnudar internamente e nos pôr a questionar como mil sessões de terapia freudiana não são.
Um chiclete grudado na roupa já o pôs em polvorosa? Uma coceira na sua perna causou surtos histéricos na pessoa ao seu lado? um rato cruzando a rua te fez mudar todos os hábitos de higiene cultivados desde a mais tenra infância? Então você teve sua dose de pomba.
Apenas os mais inteligentes dentre os inteligentes são capazes de, extraindo lições do vulgar a cercá-lo, mudarem suas vidas e mesmo a de todos ao seu redor. Isso se faz ao custo de muita atenção, como já dizia o velho e bom Pasteur, "A sorte favorece as mentes preparadas"; mas também deve algo a uma boa dose de sorte, ou, se preferir, sincronicidade de elementos.
A sincronicidade faz possível torcer a existência quando vemos uma velhinha ao atravessar a rua no exato instante de sensibilidade para assuntos previdenciários de nosso cérebro. Não fosse algo visto diariamente calhar de nos surgir no momento sensível, muito daquilo chamado por aí de intuição seria perdido.
E se você quer mesmo saber, é essencial buscarmos por estes momentos de iluminação, sermos antenas sofisticadas e captoras das lições diárias fornecidas por nossos cérebros quando sua capacidade filosófica é justaposta à observação, (nem sempre atenta, mas simplesmente livre) da consciência.
Pense no vôo controlado e preciso dos bandos indo dormir. No asco de ver uma pomba fazendo sujeira na porta de seu quarto. Pense na inacreditável capacidade migratória e de orientação de uma pomba. Pense na habilidade para sobreviver ao meio humano adquirida por gerações e gerações de pombas urbanas. Nas doenças ou na substância única no mundo das aves (O "leite de pomba") produzidas pelas mães pombas para alimentar seus filhotes, um passo evolutivo incrível. Quantas lições diferentes pessoas diferentes podem extrair, a mesma pessoa pode extrair conforme o instante de avistamento da pomba.
E não obstante seu símbolo de paz, a piada que é ver Mary Poppins alimentando pombas e ensinando crianças a manterem estes bichos perto de suas casas.
Não alimentem as pombas. Elas sabem se virar. Alimente sim sua mente, pois nunca se sabe o momento no qual a pomba pode mudar sua vida.
8.2.08
Bruna
Afora a imensa sutileza, poética e riqueza de personagens construídos com palitos e não com blocos de concreto armado, o filme transpira uma coisa que é muito bem vinda no cinema nacional: inteligência.
Bruna Lombardi ainda é uma das mulheres mais lindas da face da Terra. Provavelmente a brasileira mais linda depois dos 40. E eu, tendo lido recentemente algumas de suas publicações, em especial as poesias, vejo ali não só uma estrela, mas uma pessoa de carisma literário incrível, capaz de usar frases curtas e simples como a maior arma anti-cinemão dos últimos tempos. Nada de críticas ferozes. Apenas o exemplo.
Aos curiosos: "O signo da cidade", como parece, é o nome de um programa de rádio de astrologia de uma rádio bem sem graça, apresentado pela personagem da Bruna. Ela tem um sério problema para uma apresentadora: se envolve com as pessoas ao seu redor, sejam elas as que ligam em busca de conselho, sejam as que a cercam.
E nesta teia de relações dela circulam as inúmeras histórias intercruzando-se continuamente, exibindo uma telúrica ponte entre homens, astros e destinos, moldadas pelas decisões e passividades de seus componentes.
Não é daqueles filmes onde tramas paralelas convergem para um final arrebatador. Mas sim, o retrato de um instante, onde as pontas permanecem ativas e continuarão a crescer, em novas e subjetivas relações.
Sim, o filho do casal, Kin Ricelli, está no filme. Eu, no lugar do pai dele, teria saído para tomar um café na filmagem da cena caliente máxima do filme.
E se uma das conclusões apresentadas pela trama é da inevitabilidade do chicote das ondas sofrido pelos que tentam resgatar os náufragos das ondas (quem nunca chorou sozinho na cama após fazer de tudo para ajudar outrem e relegou a segundo plano aspectos da própria vida no processo, atire a primeira lágrima), faz bem justamente por não nos permitir esquecer daqueles ao nosso redor merecedores da mais profunda admiração.
Vejam a Bruna. Ela fez por merecer.
In nomine
É um modo de fazer brotarem novas flores no campo de Imatéria. E não, não vai ter texto para todo mundo. Eu conheço gente demais para isso. Mas certamente há algo a ser dito inspirado por certos nomes.
E não há ordem, a não ser aquela dada pelas musas.
Quem estará por aí?
20.1.08
IPEC
Não sei se você já sabe, mas 99,99% dos biólogos sentem um arrepio de luxúria ao ouvir "estudar golfinho". No final das contas, quem pôde ir foram poucos.
O tal maluco, o Fernando, estava ali como representante de um instituto que nascera há talvez umas duas ou três horas antes. Dedicaria-se ao estudo das questões ambientais e, posteriormente, sociais da região de Cananéia.
O lagamar, área de estuário gigante na divisa do Paraná com São Paulo, é absurdo. a biodiversidade dali faz inveja a provavelmente todo o continente europeu e à América do Norte. Resultado óbvio, todos se apaixonaram pelo lugar e também pela idéia daquele povo que tocava um instituto de pesquisas apenas para aquele pedacinho de mata, a maior área de mata atlântica preservada onde já pisei.
Desde então, voltei à região algumas vezes. Fui e voltei à zoologia, minha área de paixonite inevitável. Qualquer pessoa que queira-me como amigo sabe que eu não hesitaria um instante se fosse convidado a ficar 3 meses no meio do mato olhando bicho. E sabia do que acontecia ao pessoal do IPEC. Fiz outras idas até lá com aquele povo (A melhor tainha e camarões que já comi foram graças a eles). E ver algo que vi no início manter-se de pé me manteve são durante alguns anos de afastamento dos trabalhos mais saudáveis da vida.
Semana passada fui até Cananéia novamente. Afora o fato de ter sido cercado por áreas de calamidade pública, ter perdido a placa do carro com buracos e lama, exigido demais da suspensão e calotas da pobre Ranilda (o carro) e visto muita, mas muita chuva o tempo todo, pude fazer uma visita até o IPEC.
Como? Passando pela cidade vi uma placa em uma das casas antiguíssimas do centrinho da cidade. Uma sede de apoio à pesquisa. Pôsteres nas paredes e pilhas de trabalhos espalhados pelas estantes me mostravam que os estudos iam bem, e logo soube que não apenas uma casa para ajudar aos pesquisadores funcionava, mas também um centro de cultura caiçara tocado pelo IPEC, onde se davam os cursos, memória e estímulo ao mundo bravo e em risco de extinção dos moradores tradicionais do lagamar. Fui muito bem recebido apesar da queda de pára-quedas por ali, e saí com um enorme sorriso no rosto de ver uma coisa que me foi apresentada como sonho estar a pleno vapor e apesar das dificuldades de fazer ciência em terras tupiniquins manter uma produção e uma respeitabilidade prática!
Parabéns, Fernando, Gica, Letícia, Emygdio, Fri e todos que conheci soprando a traseira do "lobo-marinho" para economizar combustível. Que afinal seja mais e mais daqui para a frente, e repetindo, não custa chutar o pau da barraca e fazer das tripas coração para fazer sonhos andarem. Eles começam a andar sozinhos antes de precisarmos sofrer para vê-los.
Para quem quer saber mais:
http://www.ipecpesquisas.org.br/
25.12.07
White Christmas
Falei para a marininha que o natal é uma forma de descarregar todo o espírito kitsch, brega e exagerado de americanização de nossas vidas antes do ano acabar, deixando espaço livre para uma comemoração de ano-novo que emenda no carnaval e se exprime enfim como nossa própria forma de ser no mundo.
Portanto, o natal é um expurgo, de certo modo. E daí natal ser comemoração familiar e ano-novo ser farra. É início, e queremos começar com o pé direito, e nem sempre começar com a família exprime isso tão bem.
Eu ainda não sei onde vou ver o relógio bater as doze badaladas do dia 31 e primeira balada do dia 1, mas tem que ser em sampa (viajar num feriado assim é atestado de masoquista) e tem que ser novo.
Convites? rs
11.11.07
Da inexpugnável maneira demirragena de ver o universo
Desde os primeiros contatos com os demirrageos, se tem colocado hipótese sobre hipótese sobre como eles pensam para apresentarem o comportamento bizarro que apresentam ante os viajantes que com eles se encontram. Sempre de bom humor durante sua vida cotidiana, o que é demonstrado pelos diversos representantes de nossa casta que com eles já conviveram, quando se vêem ante um passante qualquer se colocam a urrar como se tomados por uma fúria descomunal e se colocam a correr atrás de suas canelas, não raro mordendo-os com ferocidade e causando ferimentos que, embora jamais sejam graves, sempre são dolorosos e deixam as cicatrizes características de suas arcadas dentárias poderosas.
Talvez uma melhor compreensão do fenômeno e de nossas opiniões sobre isso prescinda de uma nota historiográfica sobre este povo e seus primeiros contatos conosco.
Os demirrageos foram injustamente tachados de povo primitivo e digno de extermínio, e durante muitos ciclos foram abatidos pelos primeiros exploradores de seu território.
Apenas após anos de invasões injustificadas a suas clareiras e matas alguém se preocupou em entender aquele povo. Como é de praxe de todo povo que chega a um novo território, declaramo-nos donos daquela região e superiores aos seus antigos habitantes. Quando se viu que nada havia de interesse econômico na região (ainda não havia iniciado-se a corrida aos minérios de raspina, abundantes na região e atual fonte de renda dos demirrageos no comércio interpovos) abandonou-se o interesse comercial e iniciou-se o científico. Alguns corajosos antropólogos interpovos se dispuseram a fazer observações acerca deste povo, tentando não ser notados e entender quem eles eram. Descobriram um povo dotado de imensos dotes artísticos, com obrigações artísticas inerentes a sua cultura (não há demirrageos que não seja artista em alguma modalidade) e uma liberdade de expressão e pensar que não encontrava paralelo em nenhum outro povo. Ainda mais, se descobriu que se alimentavam essencialmente de algas e peixes, que coletavam em rios sempre distantes ao menos mil passos da aldeia.
As aldeias dos demirrageos são um espetáculo à parte. Não existe unidade arquitetônica alguma. As casas são dispostas em círculos, e nas aldeias maiores, onde não cabem todas as casas em um único círculo, diversos outros são montados em uma superestrutura que lembra um conjunto de anéis. Todos participam da construção de cada casa, que é desenhada por seu dono, e este é o único que não faz nada durante a construção. São feitas de palha, madeira, pedra, barro ou mesmo cavadas no chão, em rocha pura ou montadas sobre palafitas inúteis.
Com o tempo, os nada discretos cientistas acabaram sendo aceitos como parte da paisagem por alguns demirrageos, que os diferenciavam dos antigos exploradores de minérios. E não mais corriam atrás deles com os caninos avantajados à mostra. E então se fez um primeiro contato interpovos. Qual não foi a surpresa quando se notou que era um povo de incrível, embora excêntrico para nossos padrões, senso de humor. O dialeto demirrageano possui mais de duzentas palavras para brincadeira ou piada, cada qual discriminando um tipo de chiste. Grunhem bobagens uns para os outros constantemente, e nunca se irritam uns com os outros, a não ser com relação à construção das casas, quando se desafiam pelo seu gosto arquitetônico. Então, escolhem um árbitro, pois julgam ser desonroso decidir por si mesmos quem é o vencedor, e disparam uma sequência de esculhambações grosseiras um contra o outro durante cerca de um minuto.
Às vezes mordem os calcanhares do juiz.
Aquele que melhor ofender ao outro, com as poucas palavras ditas de baixo calão do dialeto e a imensa criatividade para ofender com palavras infantilóides, tem sua opinião acatada pelo outro, mas deve se submeter a, como prêmio, construir o telhado ou equivalente da casa sozinho.
As discussões são raras, portanto.
Os demirrageos ainda são conhecidos por não serem, em hipótese alguma, monogâmicos, e os cientistas que com eles conviveram por vezes se espantaram com os convites interpovo que receberam e as tocas cavadas no meio da aldeia para prática sexual. Embora existam, aparentemente, dois tipos de indivíduos, não há comprovação teórica de que sejam sexos diferentes. Nunca se dissecou um demirrageo, e as duplas são de indivíduos de mesmo tipo ou diferente de modo aleatório. Sabe-se que independe de estar com um indivíduo do tipo oposto para se dar a gravidez, com duração de cerca de seis meses e postura subsequente de até três embriões, que serão dependentes de seu genitor por até dez anos, quando planeja sua casa e se dispõe a convocar a aldeia para construí-la.
Externamente, os demirrageos tem uma aparência que não é muito diversa dos de nossa casta, apenas diferindo pelo fato de possuírem coloração alaranjada, com extremidades azuis que se camuflam com a vegetação, e a presença de dois olhos a mais nas laterais da cabeça. De resto, o plano de membros inferiores, tronco, membros superiores, espinhos costais, leques escapulares membranosos e cabeça mediana com órgãos dos sentidos é igual, exceto com relação à mandíbula forte e protuberante (o nariz adunco e afilado de nossa casta é extremamente atraente para os eles, desprovidos desta ornamentação; mas nossos olhos pequenos, metade do tamanho dos olhos demirrageos que alcançam até oito centímetros de diâmetro, é-lhes pavoroso). E a pelagem superior, via de regra, segue certas semelhanças com o gosto arquitetônico de seu possuidor. Os cabeleireiros dos demirrageos são conhecidos interpovos.
De qualquer modo, não há por quê supor que são primitivos, mas simplesmente não haviam alcançado um nível tecnológico avançado nos mesmos aspectos que as demais castas, embora, sua medicina se aplique a todo o interpovo .
19.8.07
Totem
Nela, não há espaço para cordeiros. Na vida, o belo da existência é a beleza da superação. Não há espaço para aquilo necessitado de um pastor a nos alimentar, guiar e a quem vez ou outra é concedido o direito de matar uma de suas rés em sacrifício para se alimentar.
Todos os povos ligados à vida em sua pureza e essência escolheram o totem de sua imponência, de sua força, de sua nobreza e coragem. A lebre, o corvo, o leão, a harpia... O elefante, o touro, a serpente... a onça, o boto, o cervo. Não há espaço para tolos teleguiados na vida. Não há lugar para quem não nada contra a corrente.
O tamanduá quando rompe o cupinzeiro crava suas garras no mamilo de Gaia e lá bebe o sumo da vida na forma de milhares de insetos. O cadáver destruído por vermes e carniceiros é resgatado ao pó de sua origem e volta ao ciclo de nutrição e retribui pela carne que teve. O grito de nascimento da baleia e o assobio de sua primeira respiração são os cânticos de agradecimento ao seu direito de enfrentar a vida e superar suas imperfeições, pondo-as à prova contra o substrato do existir.
Meus avatares não são os profetas da servidão. Jesus era de escorpião. Maomé deu suas lições a Che Guevara. Buda renasceu para lutar sem um tapa sequer como Gandhi, e venceu. É mais nobre o Para-atleta que o perfeito milionário do futebol italiano. Ali é a manifestação do Olimpo em sua plenitude, onde nasce um fulgor de luz, uma dádiva dos deuses e ergue-se a vida benigna. E onde as trevas gritam e sacodem a alegria de terem feito seu serviço de fazer erguer-se o herói.
A águia assume seu lugar ante o sol e abre suas asas sobre o continente, sobre o oceano, sobre o mundo. Ela abate os cordeiros, submissos a seu pastor. E ainda assim os pastoreados a invejam. Pois seus chifres de cordeiro são aparados. Pois ao que aceita seu papel de ovelha não é dado o direito de bramir e tomar seu lugar na montanha, nos picos mais altos de seus ancestrais selvagens e pagãos.