11.11.07

Da inexpugnável maneira demirragena de ver o universo

Desde os primeiros contatos com os demirrageos, se tem colocado hipótese sobre hipótese sobre como eles pensam para apresentarem o comportamento bizarro que apresentam ante os viajantes que com eles se encontram. Sempre de bom humor durante sua vida cotidiana, o que é demonstrado pelos diversos representantes de nossa casta que com eles já conviveram, quando se vêem ante um passante qualquer se colocam a urrar como se tomados por uma fúria descomunal e se colocam a correr atrás de suas canelas, não raro mordendo-os com ferocidade e causando ferimentos que, embora jamais sejam graves, sempre são dolorosos e deixam as cicatrizes características de suas arcadas dentárias poderosas.

Talvez uma melhor compreensão do fenômeno e de nossas opiniões sobre isso prescinda de uma nota historiográfica sobre este povo e seus primeiros contatos conosco.

Os demirrageos foram injustamente tachados de povo primitivo e digno de extermínio, e durante muitos ciclos foram abatidos pelos primeiros exploradores de seu território.

Apenas após anos de invasões injustificadas a suas clareiras e matas alguém se preocupou em entender aquele povo. Como é de praxe de todo povo que chega a um novo território, declaramo-nos donos daquela região e superiores aos seus antigos habitantes. Quando se viu que nada havia de interesse econômico na região (ainda não havia iniciado-se a corrida aos minérios de raspina, abundantes na região e atual fonte de renda dos demirrageos no comércio interpovos) abandonou-se o interesse comercial e iniciou-se o científico. Alguns corajosos antropólogos interpovos se dispuseram a fazer observações acerca deste povo, tentando não ser notados e entender quem eles eram. Descobriram um povo dotado de imensos dotes artísticos, com obrigações artísticas inerentes a sua cultura (não há demirrageos que não seja artista em alguma modalidade) e uma liberdade de expressão e pensar que não encontrava paralelo em nenhum outro povo. Ainda mais, se descobriu que se alimentavam essencialmente de algas e peixes, que coletavam em rios sempre distantes ao menos mil passos da aldeia.

As aldeias dos demirrageos são um espetáculo à parte. Não existe unidade arquitetônica alguma. As casas são dispostas em círculos, e nas aldeias maiores, onde não cabem todas as casas em um único círculo, diversos outros são montados em uma superestrutura que lembra um conjunto de anéis. Todos participam da construção de cada casa, que é desenhada por seu dono, e este é o único que não faz nada durante a construção. São feitas de palha, madeira, pedra, barro ou mesmo cavadas no chão, em rocha pura ou montadas sobre palafitas inúteis.

Com o tempo, os nada discretos cientistas acabaram sendo aceitos como parte da paisagem por alguns demirrageos, que os diferenciavam dos antigos exploradores de minérios. E não mais corriam atrás deles com os caninos avantajados à mostra. E então se fez um primeiro contato interpovos. Qual não foi a surpresa quando se notou que era um povo de incrível, embora excêntrico para nossos padrões, senso de humor. O dialeto demirrageano possui mais de duzentas palavras para brincadeira ou piada, cada qual discriminando um tipo de chiste. Grunhem bobagens uns para os outros constantemente, e nunca se irritam uns com os outros, a não ser com relação à construção das casas, quando se desafiam pelo seu gosto arquitetônico. Então, escolhem um árbitro, pois julgam ser desonroso decidir por si mesmos quem é o vencedor, e disparam uma sequência de esculhambações grosseiras um contra o outro durante cerca de um minuto.

Às vezes mordem os calcanhares do juiz.

Aquele que melhor ofender ao outro, com as poucas palavras ditas de baixo calão do dialeto e a imensa criatividade para ofender com palavras infantilóides, tem sua opinião acatada pelo outro, mas deve se submeter a, como prêmio, construir o telhado ou equivalente da casa sozinho.

As discussões são raras, portanto.

Os demirrageos ainda são conhecidos por não serem, em hipótese alguma, monogâmicos, e os cientistas que com eles conviveram por vezes se espantaram com os convites interpovo que receberam e as tocas cavadas no meio da aldeia para prática sexual. Embora existam, aparentemente, dois tipos de indivíduos, não há comprovação teórica de que sejam sexos diferentes. Nunca se dissecou um demirrageo, e as duplas são de indivíduos de mesmo tipo ou diferente de modo aleatório. Sabe-se que independe de estar com um indivíduo do tipo oposto para se dar a gravidez, com duração de cerca de seis meses e postura subsequente de até três embriões, que serão dependentes de seu genitor por até dez anos, quando planeja sua casa e se dispõe a convocar a aldeia para construí-la.

Externamente, os demirrageos tem uma aparência que não é muito diversa dos de nossa casta, apenas diferindo pelo fato de possuírem coloração alaranjada, com extremidades azuis que se camuflam com a vegetação, e a presença de dois olhos a mais nas laterais da cabeça. De resto, o plano de membros inferiores, tronco, membros superiores, espinhos costais, leques escapulares membranosos e cabeça mediana com órgãos dos sentidos é igual, exceto com relação à mandíbula forte e protuberante (o nariz adunco e afilado de nossa casta é extremamente atraente para os eles, desprovidos desta ornamentação; mas nossos olhos pequenos, metade do tamanho dos olhos demirrageos que alcançam até oito centímetros de diâmetro, é-lhes pavoroso). E a pelagem superior, via de regra, segue certas semelhanças com o gosto arquitetônico de seu possuidor. Os cabeleireiros dos demirrageos são conhecidos interpovos.

De qualquer modo, não há por quê supor que são primitivos, mas simplesmente não haviam alcançado um nível tecnológico avançado nos mesmos aspectos que as demais castas, embora, sua medicina se aplique a todo o interpovo .

Um comentário:

Maria José disse...

Acho que descobri minha turma. Sou demirragena... mas confesso que ainda naõ treinei as mordidas certeiras com as quais tenho vontade, de vez por outra agredir aqueles que invadem, sem permissão meu território. Gostei particularmente das poucas brigas e do humor infantilóide.
Sempre gosto de passar por aqui, pois certamente vou sair enriquecida.
Obrigada Ri, por sua amizade.
Maria José