7.8.08

Nominado

Aqui finda a fase de nomes no blog. Se seu nome não surgiu aqui, talvez você seja inseparável de seu nome, e eu jamais conseguiria dizer algo que não fosse ligado a alguém. Ou então, seu nome é sem graça. Pode ser ainda que você esteja acima de tudo isso.

Até a próxima postagem...

20.7.08

Alice


"Alice nos país das maravilhas" teve um enorme impacto sobre a cultura popular e, infelizmente, tornou o nome "Alice" um dos mais comuns quando se quer criar uma personagem caída de pára-quedas em alguma coisa.
Até em "Resident evil" a personagem de Milla Jojovich chama-se Alice. Mas quão boa é a sensação de cair de pára-quedas em alguma coisa?

Cair de pára-quedas é algo único, disse uma amiga minha que já lançou-se ao vazio. Você decide onde vai estar, a que altura, o aparelho que impedirá sua morte terrível, o instrutor, e se JOGA. Tudo pensado e calculado, mas com uma dose imensa de risco e pavor, para cair em sabe-se lá qual pedaço de chão, após milhares de batimentos cardíacos apavorados com a situação nada natural de cair de um avião.

Todos somos incitados a ser um pouco Alice e um pouco pé-no-chão. "Se joga" é uma frase tão repetida quanto temida neste mundo. Siga o animal irracional com um relógio na mão e falando. Mas de preferência tenha estabilidade, firmeza de opinião, sensatez e frieza nas decisões.

Quer saber? Se Joga! As oportunidades caem de pára-quedas o tempo todo, quando as caçamos, quando nossos sentidos se voltam a isso. Mas não nos jogamos como elas se jogam em nossa trilha pelo destino. Sabe o dia de sua morte? Sabe quando será o dia mais feliz da sua vida? Ninguém sabe! Portanto, Quando escolher algo a fazer, vista o macacão direito, siga as instruções do instrutor dadas por todo seu aprendizado, escolha um avião que não vá explodir no ar, mas não arregue. Se jogue. E torça para não ter areia movediça lá embaixo. Quando sabemos cair, podemos guiar razoavelmente bem determinar onde, no chão abaixo de nós escolhido para isso, o salto nos levará.

29.6.08

Betão

Na quarta-feira, 25 de junho de 2008, findou-se uma era. Cerraram-se as portas do bar do Betão, herdeiro e continuidade do V2, o bar rock´n´roll esperança a todos os órfãos da zona norte.
Não, os motivos de fechar não são dramáticos e chorosos. O Betão resolveu deixar a noite de lado um pouco, pois família aumentou. Ainda vai existir diurnamente.
Durante 4 anos, o V2 e o bar do Betão ofereceram ao bairro uma quarta feira onde todos os seres da noite se encontravam. E se não há exatamente consolo em saber que outros 2 ou 3 lugares já se ofereceram para substituí-los, ao menos ficamos esperançosos de encontrar sempre a fauna dali.
São muitas as mudanças que passei nestes últimos 4 anos, e o fim das quartas de sarau, capitaneadas pelo Mou, apenas traz a confirmação de novos passos serem dados. E ainda mais, que tudo precisa de mudanças. Foram-se o Half, o Blues company, o Jazz Bass, o V2 e agora o Betão, mas o próximo na função de agregar a tribo róquenrol de Santana e adjacências está no forno.
E de todas as criaturas por ali encontradas e conhecidas, cada figura emergente ou já estabelecida, ganhei algo. E do clima de casa, mesmo sob meu silêncio num canto enquanto escrevia alguma coisa, ou nas mais animadas conversas com novos e velhos amigos, recém adquiridos ou reencontrados após anos, eu levo a hospitalidade e o bom humor.
Os nomes são muitos, próximos ou apenas conhecidos, amigos ou rostos que perfaziam o cenário e completavam a luz do lugar, e todos importantes.
E do Cri ao Chris, Da Tati e Mou a Batata e Sheila, Rita e Renata a Bruna vs Fabi, Marcos Valério e Theo a Nelsinho e Eduardo, Paloma, Guará, Thaís, Isaac, Wan, Suelen, toda a trupe do Soul Barbecue e cia (Leozinho, Diego e trocentos outros), foram milhares as piadas, tirações de sarro e assuntos sérios tratados. E não é saudade sentida, mas vontade de logo ter o que toma o espaço para novas mesas com cerveja em cima, bexigas cheias embaixo e idéias flutuando.
Até a próxima mesa, e sejam bem vindos ao admirável mundo novo.

9.6.08

Raquel, Oriel, Miguel, Daniel, Gabriel, Rafael...



Minha vida é cheia de anjos. Aliás, se for para ir nesta direção, praticamente todo povo de origem católica entope de anjos os cartórios, quase com tanta lotação quanto coloca santos em certidões de nascimento.

Mas a minha especialmente é cheia deles. Não é sempre que encontro um, mas achar um anjo é um acontecimento. Achar o nome do seu anjo particular demanda um certo conhecimento de hebreu, mas acontece. Mas identificar os anjos do dia a dia é deveras mais difícil.

Recentemente li uma sobre quantas pessoas o executivo precisa presentear no natal. O fulano vive de bajular a secretária do chefe, o manobrista, a tia do café, e por aí vai, pois são eles que realmente tocam a carreira dele para a frente, indiretamente. É mais ou menos esta a ação do anjo. Mas quando anjos tocam nossa vida para o novo patamar, usam de mais modos de agir que simplesmente achar o cara simpático e dar a chance a ele de ter sua reunião com o chefe.

Todas as culturas crêem em espíritos guardiões. A maioria delas crê, xamãnicamente, em espírito animais, os totens, que facilitam nossa existência. Os orientais possuem o conceito do "Eu-maior", como se (simplificando o conceito) nossa proteção e aconselhamento divino viessem de nós mesmos no futuro evolutivo do espírito. Hermes tem asas nos pés, e é o mensageiro dos Deuses, embora seja um Deus por si só. Anjos ganham a missão de mensageiros também, e as asas nos espíritos protetores das grandes religiões monoteístas não são apenas apra designar sua proximidade com o céu.

Velocidade é útil a um anjo. Ter asas é uma coisa animalesca, mas invejável. O anjo católico é um pouco totem, também.

Cupido é a imagem pagã romana transferida para os anjos. Cupido é o Amor de sua mãe, Afrodite, em termos práticos. E o amor de uma entidade superior para cuidar de um simples mortal só poderia ganhar a cara de Cupido.

Mas anjos são durões também. Na bíblia, trucidam milhares. Animais totens são feras quando alguém tenta intervir no espírito errante do xamã. As valquírias são guerreiras, e ai daquele que tentar desonrar um guerreiro vencido. E as Fingja-hamingja celtas protegem cada membro de linhagens familiares ou de grupos de afinidades diversas.

O pensamento de um ente além-mundo protetor é confortante, mas psicologicamente é apenas um equivalente de crença à sensação infantil de ter a mãe sempre a um grito de distância.

Porém, posso contar uma coisa.
Naqueles momentos de dúvida, onde pensamos onde amarramos nosso jegue, como se usa o botão de "reset" do coração, por que algumas coisas são como são, e por aí vai, a gente saca daquela oração de criança na beira da cama e pede para o "anjo da guarda" uma sugestão.

E de vez em quando, a sugestão é trazer um anjo na nossa vida.

15.5.08

Melissa


Melissa officinalis é o nome de uma erva medicinal comum, popularmente chamada de erva-cidreira, ou de melissa mesmo.
"Diz a lenda que a melissa recebeu este nome em homenagem à ninfa grega Melona (em grego "Mellona"), protetora das abelhas. E a relação da planta com as abelhas é realmente muito interessante: na primavera, quando nascem várias rainhas numa mesma colméia, o enxame se divide em vários menores e cada um sai em busca de uma nova colméia. Como a melissa tem o poder de atrair as abelhas, povos antigos colocavam suas folhas frescas trituradas em colméias vazias para atrair os enxames que estavam migrando" (extraído do site jardimdasflores.com.br).

Lá em algum lugar do passado distante, antes da era dos antibióticos ou hoje, quando eles são caros demais para a maioria e desnecessários para os comuns dos casos médicos caseiros, a melissa e dezenas, centenas de suas amigas medicinais abasteciam as boticas, jardins, hortas e memórias de nossas avós e avôs. Há plantas para tudo: de pedra no rim a vírus desconhecidos, de frieira a bicho de pé. E há as receitas com carvão, mel, gordura animal, pós e muitas outras substâncias que fazem os farmacêuticos comuns se arrepiarem e os pesquisadores sorrirem pela chance de um novo princípio ativo.

Claro, a medicina popular precisa ser salva, recuperada, disseminada e voltar a ocupar o lugar merecido pelos séculos de experiências dos nossos antepassados, mas aí encostamos em uma barreira de superstição, preconceito e falta de avôs pacientes o bastante para dizer aos cientistas como se faz o chá para curar dor no joelho e asma.

E não tem cabimento voltar a prescrever testículos de boto cozidos para impotência, mesmo na remota possibilidade de que funcionasse. Existe viagra, que não mata nenhum cetáceo para ser produzido. E podemos usar o antibiótico da vez sem abrir mão do chá de alho com limão e guaco, e vice-versa.

Diz a crônica (mitologia?) científica que uma planta usada por índios do Pará por milênios para curar diversas viroses inespecíficas começou a ser estudada por, para variar, um grupo de cientistas estrangeiros. Potencialmente, era o maior anti-viral conhecido. Quando o grupo foi colher a planta para dar continuidade aos estudos e começar os protocolos de descoberta do princípio ativo, uma queimada destruiu o único lugar onde esta planta era encontrada. Hoje, milhares de hectares de floresta estão nas mãos de interessados em recursos medicinais de nossas matas.

E pedimos as bênçãos de Mellona para um dia a tal da planta ser reencontrada. E assim possamos dar alento a pacientes de dengue, HIV, ebola e tantas outras...

22.4.08

Marcos

Na primeira medição de um terreno para delimitar um território, nasceram três coisas:

1º- A ferocidade territorial humana ganhou contornos visíveis e qualquer idiota portando um tacape grande o bastante podia se dizer dono de um pedaço de terra, fonte de toda disputa territorial, fundiária e por moradia desde então, mas este ponto crucial da cretinice da espécie merece outro tipo de discussão;
2º - A geometria e...
3º - A necessidade de colocar pontos precisos de delimitação de área, onde se identificasse as curvas, linhas, pontos importantes e o centro de cada terreno. A isto se deu o nome de marco, e as marcações passaram a ser integrantes de nossa visão de mundo.

Talvez por causa disso, hoje temos o hábito de pôr referências internas para nossa vida. Estabelecemos marcos que nos dividem em antes e depois deles, separam fases de nossa psicologia, ou são literalmente os momentos onde nossa vida vai de cabeça para baixo. Suponho que quando o José Hamilton Ribeiro perdeu a perna no Vietnã (não sabe quem é o maior repórter de guerra do país? Buscador nele!) ele não teve muitas dúvidas sobre aquele ser um marco em sua vida. Dos mais negativos, é verdade, mas foi.

Mas em geral nossos marcos são mais sutis. O dia do aniversário que nunca fora comemorado e de repente enche a casa de presentes, bolo e gente; aquele "não" ante a certeza; o chocolate que nos salva no momento de maior vontade de matar o cretino do trabalho; aquele palavrão bem colocado que nos faz livres da repressão familiar... Todo mundo pode identificar coisas aparentemente fúteis, estabelecedoras de uma nova fase na existência.

Os bons mesmo são aqueles não tão comuns. Onde torcemos nossa personalidade (dita imutável) graças a uma revelação surgida em nosso intelecto, e não forçada pelas circunstâncias.
Estas revelações capazes de alterar toda a dinâmica de nosso ser, nascidas de observação, lógica, inspiração espiritual, harmonia com nossos corações... tudo isto junto ou nada disso, são as que nos definem como mutantes verdadeitos, não nos obrigam a ser sempre iguais e fazem nossa alegria quando encontramos quem não vemos a muito tempo e dizem "você parece igual, mas tem algo dentro de você tão diferente..."
Isso é show de bola.

Posso identificar em mim mesmo alguns destes momentos sem sofrer. Outros terão que ser puxados dos fundos da memória. Os negativos, os traumas, em geral são ocultos por nossas mentes. Lutamos contra suas consequências com os momentos de mudança positivos. Um livro pode valer mais que anos de terapia, uma terapia bem conduzida pode ser melhor que uma viagem de peyote xamãnica, um porre de vinho pode ser melhor que todos os livros do mundo. E todos podem nos mudar se surgem no momento certo, quando mantemos nossa mente aberta a ser radicalmente mudada...

Posso identificar pelo menos um exercício de teatro que me fez dar um salto para fora da adolescência. Uma bronca de diretor que me fez ver o palco como outro mundo. Um fora que me fez retrair-me em conchas cada vez mais grossas. Uma lágrima escutando uma música me mostrou o que é arte. Um porre de vinho que me fez começar a sair de conchas. Um susto no trânsito que me fez tornou atento às armadilhas de meu corpo em conflito com minha mente. Um livro ano passado me deu a chave de minha luta contra a barbárie. Outro, muitos anos atrás, me colocou em contato com os Deuses em cada pedaço do universo e da imaginação. E talvez as últimas 24 horas tenham sido outro marco. Só o tempo dirá.

O mais estranho foi encontrar o Marcos quando este texto já embrionava na minha cabeça. Se os momentos de mudança não são extraídos por nós daquilo que nos cerca, ou de nossas mentes e imaginação, eles se apresentam sozinhos, mas daí, não são necessariamente como gostaríamos que fossem.

7.4.08

Priscila

Os gregos antigos acreditavam que vivemos na era de ferro. Hesíodo relata as diversas eras da humanidade citando os eventos que vão dando forma ao mundo da mitologia e enfim chega até a era dos homens mortais, esta, onde a presença dos deuses já não é sentida diretamente e o trabalho e a justiça são os valores capazes de elevar os donos deste tempo, os humanos, para a morada dos Deuses.

A era de ferro tem como marco inicial a guerra de Tróia. É o ponto culminante da vida do último dos semi-deuses, Aquiles. Os semi-deuses, filhos dos Deuses do Olimpo, são os donos da era anterior. Seus feitos são mais próximos aos do homem, e sevem para dar exemplo e molde ao caráter deste. Na guerra de Tróia, Aquiles é morto quando um homem comum atinge seu ponto fraco, o calcanhar, com uma flechada.

E a guerra somente é vencida por um estratagema humano: Ulisses tem a idéia de construir um cavalo de madeira e entregar aos troianos, para assim, através da inteligência (alguns diriam da trapaça), conseguirem vencer uma guerra capaz de destruir um semi-deus. É a vitória da perspicácia humana, e destaca a inteligência como ponto forte do homem.

Mas não é aí que se encerra a era de maravilhas. Ulisses precisa voltar para casa, e aí começa a Odisséia, narrando a jornada dele até seu lar.

Ulisses enfrenta, sempre munido apenas de sua malandragem, sereias, o último dos titãs (o cíclope Polifemo), a feiticeira Circe e dois monstros marinhos abomináveis: Charibdis e Scilla.
O primeiro era um ser divino, filho de Pontos e Géia, e controlava as marés. Costumava jogar barcos atrevidos contra um enorme penhasco.

Já Scilla, a última criatura da jornada de Ulisses, era uma humana, transformada em ser maligno por Circe, quando esta se apaixonou por um tritão enamorado por Scilla.

Scilla destrói cada ser humano que passa perto de si. A habilidade para pilotar barcos e comandar faz de Ulisses o único que escapa de sua fúria, e logo que consegue sair de seus tentáculos monstruosos, consegue voltar para sua terra e exigir seu trono ao lado de sua amada. É o fim da era dos semi-deuses definitivamente, e desde então os gregos contam a história de homens e reis, não mais de deuses e monstros.

Os gregos entendem, portanto, seu tempo em Pós-scilla e pré-scilla. Prescilla, Priscila. Aquilo que vem da antiguidade, de antes do tempo dos mortais. Mas falta Priscila em nossos tempos. Os homens, na ânsia por mudar, por conseguir seus próprios feitos, esqueceram das lições deixadas pelos deuses e semi-deuses nos tempos anteriores a Scilla.

E acabamos nos deixando levar pelas pequenezas da alma humana. Desprovida de centelha divina, a maioria cai na facilidade dos instintos ao invés de lutar pelo seu próprio brilho interior, pelo herói dentro de si. Não entende o sacrifício dos seres míticos que deram tudo de si por nós, para trazer a sabedoria e a civilização e dar de presente àquela raça nascente.

Mas prefiro ser alguém que tem dentro de si um tanto daqueles tempos pré-scilla e luta contra os monstros de meu tempo a admirar-me com o humano rasteiro espalhado por aí.