7.4.08

Priscila

Os gregos antigos acreditavam que vivemos na era de ferro. Hesíodo relata as diversas eras da humanidade citando os eventos que vão dando forma ao mundo da mitologia e enfim chega até a era dos homens mortais, esta, onde a presença dos deuses já não é sentida diretamente e o trabalho e a justiça são os valores capazes de elevar os donos deste tempo, os humanos, para a morada dos Deuses.

A era de ferro tem como marco inicial a guerra de Tróia. É o ponto culminante da vida do último dos semi-deuses, Aquiles. Os semi-deuses, filhos dos Deuses do Olimpo, são os donos da era anterior. Seus feitos são mais próximos aos do homem, e sevem para dar exemplo e molde ao caráter deste. Na guerra de Tróia, Aquiles é morto quando um homem comum atinge seu ponto fraco, o calcanhar, com uma flechada.

E a guerra somente é vencida por um estratagema humano: Ulisses tem a idéia de construir um cavalo de madeira e entregar aos troianos, para assim, através da inteligência (alguns diriam da trapaça), conseguirem vencer uma guerra capaz de destruir um semi-deus. É a vitória da perspicácia humana, e destaca a inteligência como ponto forte do homem.

Mas não é aí que se encerra a era de maravilhas. Ulisses precisa voltar para casa, e aí começa a Odisséia, narrando a jornada dele até seu lar.

Ulisses enfrenta, sempre munido apenas de sua malandragem, sereias, o último dos titãs (o cíclope Polifemo), a feiticeira Circe e dois monstros marinhos abomináveis: Charibdis e Scilla.
O primeiro era um ser divino, filho de Pontos e Géia, e controlava as marés. Costumava jogar barcos atrevidos contra um enorme penhasco.

Já Scilla, a última criatura da jornada de Ulisses, era uma humana, transformada em ser maligno por Circe, quando esta se apaixonou por um tritão enamorado por Scilla.

Scilla destrói cada ser humano que passa perto de si. A habilidade para pilotar barcos e comandar faz de Ulisses o único que escapa de sua fúria, e logo que consegue sair de seus tentáculos monstruosos, consegue voltar para sua terra e exigir seu trono ao lado de sua amada. É o fim da era dos semi-deuses definitivamente, e desde então os gregos contam a história de homens e reis, não mais de deuses e monstros.

Os gregos entendem, portanto, seu tempo em Pós-scilla e pré-scilla. Prescilla, Priscila. Aquilo que vem da antiguidade, de antes do tempo dos mortais. Mas falta Priscila em nossos tempos. Os homens, na ânsia por mudar, por conseguir seus próprios feitos, esqueceram das lições deixadas pelos deuses e semi-deuses nos tempos anteriores a Scilla.

E acabamos nos deixando levar pelas pequenezas da alma humana. Desprovida de centelha divina, a maioria cai na facilidade dos instintos ao invés de lutar pelo seu próprio brilho interior, pelo herói dentro de si. Não entende o sacrifício dos seres míticos que deram tudo de si por nós, para trazer a sabedoria e a civilização e dar de presente àquela raça nascente.

Mas prefiro ser alguém que tem dentro de si um tanto daqueles tempos pré-scilla e luta contra os monstros de meu tempo a admirar-me com o humano rasteiro espalhado por aí.

Um comentário:

Maria José disse...

Ricardo, sempre fui fascinada pela Odisseia, e vc brilhantemente explicou a ligação entre Scilla e Priscilla. Amei.
Acho que tenho algo em mim de antiguidade também. Embora a gente pense e sinta diferente, algo de brio, de valor moral se assemelha entre nós.
A cada escrito seu, admiro mais sua linha de escrita. Parabéns.
Maria José