13.12.09

Deixa ela entrar, mesmo!



Para qualquer um mestrado em filmes de terror e seus personagens clássicos, a atual onda de vampiros emos celibatários, lobisomens "bom-selvagem" e regravações pobres de filmes idem pobres dos anos 80 é um chute no estômago.

Ser original em um filme que não tem a menor necessidade de ser fiel à realidade é no mínimo fácil. Ser original, contando uma boa história, com bons personagens e respeitando as convenções do gênero é um pouco mais difícil, mas certamente não tanto quanto foi pra a autora daquele filmeco adolescente de vampiro acabar com a noção de liberdade, prazer e abandono da repressão duramente conquistada pelas últimas gerações de contestadores.

E é por isso que eu aplaudo um (O?) dos melhores filmes do ano, um dos melhores filmes de terror dos últimos tempos e certamente um dos maiores filmes de vampiro de toda a história da sétima arte: "Deixa ela entrar" (“Låt den rätte komma in”).

Pessoas, ele só está passando em um cinema de São Paulo agora, mas corram para vê-lo. É de uma sensibilidade ímpar, além de climática e assustadoramente envolvente, a história da vampira de doze anos ("mas tenho doze anos há muito tempo.", ela diz) que fica amiga do menino cuja raiva contida por ser o capacho dos valentões da escola é mais assustadora do que qualquer ser sobrenatural.

Quem realmente conhece a mitologia dos vampiros conhece alguns elementos sagrados para criar as histórias, mas "Deixa ela entrar" cuida e recria alguns destes elementos sagrados com uma liberdade respeitosa (nada de não poder aparecer na luz do Sol por que brilha como uma mulata globeleza).

Aprendemos, por exemplo, que vampiros, quando entram em uma casa sem serem convidados, podem ser mortos no interior desta.É o elemento que batiza o filme, mas cria uma das cenas mais angustiantes, embora seja apenas um pequeno detalhe sem consequências do enredo, já criadas com um vampiro em cena.

E não, apesar de ser uma graça, a vampira não é um ser bonitinho acometido por culpa. Ela é uma assassina terrível e perigosa, e sob diversos aspectos notamos o cuidado da composição "predatória" da criatura. Estranha e deliciosamente, notamos que o diretor a recria com algo de felino, e não como um morcego ou outro sanguessuga qualquer. A nobreza ganha com este recurso destaca enormemente o modo como entendemos e respeitamos a criatura retratada. E dá-lhe sangue! O filme não nos poupa de mostrar o que significa ser uma criatura sobrenatural que vive de sangue.

Tão fascinante quanto a vampira é seu amiguinho humano. Apanhando do valentão da escola de uma forma bem humana (nada dos exageros hollywoodianos de Bullying escolar), dele brota algo que hora ou outra o faria entrar atirando no colégio. Funcionando como condutor da história, o menino é tão pálido que notamos nele sua condição de papel em branco sobre a qual é apresentada uma crítica social, é descrito um universo sobrenatural vizinho e terrivelmente próximo a nós, e desenhada a formação de uma relação tão amorosa quanto é possível para uma predadora sem culpa e uma pessoa.

E sem abobrinhas romanticidas. Aqui cabe uma citação roubada da crítica do G1: é uma “exploração impressionante da solidão e da alienação através de um reexame magistral do mito do vampiro”, declarou o júri do Festival de Tribecca, em Nova York, ao premiar o longa-metragem dirigido por Tomas Alfredson como “melhor narrativa” da competição.

Em suma, há muito tempo eu não saía tão feliz (e tendo tomado tantos bons sustos) de um cinema. Procurem nas locadoras em breve, comprem o filme, e não se assustem com a inesperada origem nórdica do filme. Ela dá um tom completamente diverso para tudo.

2 comentários:

Adriano C. Tardoque disse...

O mais importante de tudo é resgatar a subversão, típica do universo vampiresco, seja por malhas da sensualidade dúbia, andrógina ou seja lá qual for, além da postura pragmática do "mato pois quero sangue". É um mérito usar crianças como protagonistas para re-assumir o que o vampiro de fato é, uma vez que as produções com jovens e adolescentes, adotaram a pieguice do amor romântico como condutora em suas abordagens. E nestes, os jovens terminam olhando o crepúsculo com afeto, cada qual com seu pote de danoninho (que vale por um sanguinho), selando com um beijo a saga. Crianças são viscerais: mordem, rasgam e são o que são. "A inocência cruel das criancinhas", a serviço da força do mito.

Isadora. disse...

Oi.
Adorei a sua resenha, cara. "Nada de não poder aparecer na luz do Sol porque brilha como uma mulata globeleza"... HAHA. Esse filme é demais. Aquelas crianças trabalham TÃO bem. Eu não queria, mas estou viciada. Preciso ler o livro agora!