17.3.08

Adriano

Situada em algum ponto na hoje sem sentido fronteira entre as terras dos pictos e os domínios romanos na ilha da Bretanha, a muralha de Adriano, construída a mando do imperador de mesmo nome para dificultar as invasões vindas do norte da ilha ao império, serviu por muito tempo para delimitar as terras dos povos civilizados e cristãos daquelas dominadas pelos temidos pagãos do norte.

Neste dia de San Patrick, é bom lembrar da divisa imposta pelos romanos. Eram povos invasores? Sim. Saxões, pictos, jutos, todos desejosos de uma fatia das férteis terras do sul. Porém, mais invasores eram os romanos. San Patrick que vá encher a cara num Pub, e pare de nos encher o saco. Nessie agradece.

Nas tentativas de expulsar os povos pagãos, surgiram muitos heróis. Mas destes, nenhum foi um Arthur. Salvo, o próprio.

Se tornou moda recentemente lembrar da provável base romana do mito arturiano. Não é mais provável que a origem escocesa de Merlin, ou francesa de Lancelot du Lac, mas vamos lá. Arthur é entendido historicamente como um grande chefe de guerra nas constantes lutas empreendidas pelos povos do sul da Bretanha contra os invasores do norte, animados com a saída dos romanos ocorrida por volta do século IV.

Eu nem saberia começar um texto que abarcasse todas as facetas das lendas do Rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda. Vou me ater à muralha. Afinal, ela ainda está lá. Os Highlanders (escoceses) ainda a vêem como uma prova do medo que os galeses, ingleses e romanos tinham deles. E de mais uma penca de povos. Quando Arthur conseguiu, por um breve sopro de tempo, manter os invasores atrás da muralha, ele apenas adiou por algumas décadas a mistura que deu origem ao povo bretão. Romanos, celtas, irlandeses, normandos, saxões e por aí vai formaram um dos povos europeus mais miscigenados em sua origem de que temos notícias.

E capaz de nos dar os Beatles.

Quando um imperador romano achou melhor começar a moda, retomada nas últimas décadas por países tão diferentes quanto a Alemanha do pós-guerra e Israel, de dividir para manter longe, não imaginava que um dos guerreiros mais capazes a defender suas esperanças se tornaria muito maior que ele mesmo, nem que o fracasso de seu plano daria origem à cultura de raízes mais longas do século XIX em diante.

Portanto, é sempre bom lembrar: nossa vontade de se isolar pode ser imprevisível. No final das contas, pode nos fazer mais conhecidos do que antes.

Um comentário:

Adriano C. Tardoque disse...

Ora pois, pois... Imaginava eu que a coisa escrita descambaria para as termas construidas por Adriano, para os desfrutes dos prazeres carnais. Ou até a origem do nome, remenendo-se sempre ao "moreno, escuro". Mas por surpreza, Adriano foi "pai", do mito de Arthur. Quem sabe a sina se estenda e o filho de Adriano, Gabriel Arthur, crie sua lenda?!