23.7.07

Para raros.

Era pra esse texto ter ido ao ar semana passada, mas ele merece uma atualização depois de tudo acontecido em 3 fins de semana (e neste em especial).

1 – É possível ter uma conversa fantástica com pessoas que você nunca viu na vida, atravessando a noite entre o filosofar e o rir (muito). Mesmo na mais estranha das festas, com o pior dos vinhos, na curva do rio mais cheia de perdidos. E notar que assumida nossa amplitude de faces, fica mais fácil ser você mesmo e ser diferente para cada um de seus companheiros de mesa.

2 – É possível começar uma conversa com as pessoas mais próximas, sobre os assuntos mais relevantes, e simplesmente se saturar disso. Ver suas preocupações e assuntos serem transformados em escada para falar de problemas e aflições superficiais dos outros, e absolutamente ser imperceptível a seu interlocutor notar que naquele dia específico você não é capaz de ser conselheiro, piadista ou penico de nada. Que você não quer ser a si mesmo naquele momento. Que não vai dar apenas o de sempre.

Dito isso, voltemos.

Há feras dentro de nós. Lobos e macacos. Disputam o cerne de cada humano desde o dia em que a humanidade nasceu. Divididos evolucionariamente entre sermos primatas coletores fortemente hierarquizados e caçadores ativos e coletivamente orientados, escapamos da trilha da seleção antes de termos uma resposta fácil sobre quem somos.

Nossos instintos de animal social são díspares. Abarcam modos de socializar em extremos muito afastados entre o lobo e o macaco. E vez por outra, temos a consciência de que há uma coisa em comum entre ambos:
Lobos e macacos possuem seus renegados.

Neste lobisomem que somos todos, agregando caracteres de carnívoro e de primata, experimentamos uma solidão interna dos perdidos, e descobrimos valores que definem os lobos que desejamos ao nosso lado e os macacos que queremos para fazer a catação mútua de piolhos. Às vezes, são ambos num mesmo indivíduo. Às vezes, e não há diferença de importância, quem temos ao nosso lado é só uma dessas coisas. E é igualmente desejado.

O que não suportamos é o lobo que não participa da caçada e espera pelos nacos de carne do grupo, o macaco que só pede para tirarmos seus incômodos e não tira de ninguém. Mas nossa cultura de ovelhas os acata. Você conhece o tipo. Ele está do seu lado quando você dorme, debaixo do seu travesseiro, e se você bobear, ele saltará para dentro de sua mente e o dominará. E sequer será percebido, pois sua vida é tão leve que te faz flutuar sobre os outros.

Ele espera do lado de cada um.

E aqueles de nós interessados em não ser submisso ao reles sobreviver vêem claramente este fenômeno. Vêem em si e vêem em outrem. Mesmo nos mais amados, nos que desejamos mais próximos, aparece e fere o jeito de ser dos espelhos, que só recebem as nossas cores e imagens, mas não oferecem seu calor. Os renegados vêem claramente os unilaterais pois, opostos a estes, sobrevivem sem estarem imersos no conjunto do grupo.

Eu soube que não estou livre de ser unilateral. Mas assim libertei-me e encontrei o alvo da crítica. Encontrei o incômodo causado pelo outro quando o vi em mim.

Cansei-me da unilateralidade. Não perderei os que me são caros, mas serei igualmente espelho: darei o reflexo do que me é ofertado, até prova em contrário. Valorizar o novo, que me vê hoje, sem os vícios de saber de um só de mim, em um só aspecto cômodo e imutável.
E, (feridos não tem ajuda) os apegados a um “eu” só inexistente na cabeça delas deixarei à sua própria sorte. E sei que me doerá.

A vida é mais que instinto. Acima do lobo, acima do homem das cavernas, acima do alienado da civilização, nossas asas se abrem e nos permitem ver onde podemos pousar e de onde devemos voar para longe. Acima do macaco e da contradição, temos arte.

Um comentário:

Maria José disse...
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