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31.7.11

The Winehouse keeps cool the drinks




Andei muito pessimista com relação aos rumos da música até alguns anos atrás. De repente, notei que eu só estava olhando para o lado errado. A coisa não está pior do que estava na década de 1980 ou 1990, por exemplo. Porém multifacetado e disperso como está, o mundo musical fica mais difícil de decifrar superficialmente: O Metal está bem, obrigado. O jazz toca em rádios populares! O Soul ganha uma noite só para ele no Rock’n’Rio. Mas para ver o que há de bom é preciso arrastar mais lixo para os lados do que antes, simplesmente por que hoje há muito mais produção do que antes. Caberia saber se a quantidade de coisa boa segue a mesma proporção que seguia em, sei lá, 1979 ou 1991. Só não quero falar de estatística.
Toca uma da porralouca mor dos anos 2000, quando ela ainda tinha carne sobre o pó. “Stronger than me” é uma das boas coisas que a Amy criou quando ainda era dona de si mesma.
Este texto germinou na minha cabeça enquanto eu preparava uma coletânea das melhores vozes femininas desde 1940 para uma das melhores vozes femininas de hoje. Antes disso, uma aprendiz já havia postado em uma rede social um clipe da Adele, outra da nova leva jazzística atual que não faria feio na Chicago dos anos 1940 (e espantou-me alguém de 18 anos postando isso em seu mural ao lado de Lady Gaga ou Rihanna) e um estagiário, há um mês, cantarolava Joss Stone pelos corredores. Sem falar no mar de gente assistindo Hermeto Paschoal na Virada cultural. Hermeto Paschoal, o bruxo incompreensível, é pop!

O assunto cresceu e quando a idéia já estava maturada, com as primeiras linhas no papel, veio a notícia da morte de Amy Winehouse. E se antes o objetivo destas linhas era destacar um bom momento de um gênero que andava elitizado demais, agora é preciso pensar no que pode acontecer com a ida de sei ícone atual mais marcante por causas ainda indeterminadas.

Será como o Grunge, que morreu junto ao Cobain, ou como o Rock Clássico, que expandiu-se depois que Buddy Holly se foi?

E indeterminadas sim, pois não repetir aquela revista semanal conservadora que colocou a Cássia Eller como vítima de overdose na capa e jamais pediu desculpas depois que a autópsia revelou que ela estava limpa. Ah, mas é provável que Amy tenha morrido de overdose? Sim, é, assim como é provável que algum executivo de gravadora tenha mandado matar uma artista problemática na simbólica idade de 27 anos para lucrar com seus restos ou ela tenha morrido em uma briga com o namorado.

Pouca antes da afundada que nos deu a onda do forró universitário, surgiu uma teoria: a música está tão ruim que agora só subindo de nível. Claro que a coisa piorou muito depois (vieram novas boy bandas, o funk carioca, sertanojo universiotário, os gangsta de boutique, o emo e o happy rock) e agora realmente parece não haver lugar mais para baixo, e a coisa tende a ir para a única direção possível: para cima.

O novo jazz radiofônico é repleto de levadas pop, soma guitarras aos metais típicos, é cheio de “fulana featuring ciclano” e incomoda os puristas e os acostumados às complexidades harmônicas dos experimentalistas. E continua sendo inegavelmente jazz, o gênero musical que, na prática, abarca coisas tão diferentes que nem deveria ser chamado de gênero musical.

Uma das burocráticas Kate Melua, Norah Jones ou a Joss Stone vão fazer uma reviravolta mágica e tomar o topo agora? Será que Adele vai fazer um megaregime e tocar de umbigo de fora? E como saber se ela foi só mais uma vítima da indústria ou se ela só fez regime por desejar isso há séculos e agora ter como pagar um bom nutricionista e cozinheiros? Vão arrumar uma substituta polêmica na miríade de imitadoras de Amy que surgiu? Vai surgir alguém novo? O novo vai ficar do lado do Mississipi ou de Paris? Chicago ou Londres? Hermeto Paschoal ou Ivan Lins?

O diferencial não é nenhuma destas coisas, e pode ser muito bem ilustrado em uma cena que foi ao ar num tributo de 2005 a Janis Joplin, a blueseira que pegou o Rock e lhe deu whisky para mamar. Joss Stone e Melissa Etheridge subiram ao palco para cantarem juntas. Lado a lado, a belíssima Stone começou com uma versão tecnicamente perfeita e fria de “Cry baby”, e chamou uma careca, linda e rouca (é, quimio tem efeitos colaterais) Melissa para dividirem “Piece of my Heart”. A façanha está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=ef-f-l2Pbn8 .

Não é preciso ser gênio para adivinhar que a técnica ficou para trás da sujeira emocional e gritada. É isso que fez Amy grande. Ela não foi a melhor cantora, a melhor voz, a melhor compositora (e compunha muito bem, coisa rara hoje em dia) ou a melhor sobrevivente. Mas foi a que se esgarçou frente às platéias, que chorou, que cantou mal, que destruiu, que fez força e compôs com alma. Ela trouxe a dor e o deleite que fazem do jazz O Jazz, e os doutores da indústria fonográfica jamais saberão como reproduzir.

Se você quer sabe de onde vem a próxima grande coisa, olha na lixeira. Aquilo que traz o novo e traz sangue para o fadigado quase sempre sai de onde o sofrimento faz a pele endurecer, a expressão se sofisticar, a habilidade crescer, a técnica submeter-se ao ritmo... e as notas saírem carregando pedaços da dor e do prazer de quem as faz.

17.2.10

Cantoras em ternos de 3 botões

Acabou o carnaval e para todos os lados só se falava de desfiles e suas passistas, de Paris Hilton sendo carregada bêbada, de Madonna e seu chaveiro brasileiro assistindo sambistas sérios obrigados a darem showzinho particular a ela e do clipe de Alicia Keys gravado em Salvador onde Beyoncé se vestiu de brasileira-clichê-de-cartaz-de-turismo-sexual.

Embranquecida?

E é dessa última pessoa que vou falar aqui. Sim, admito, a Beyoncé é uma cantora competente, uma dançarina exemplar, uma musa pop indiscutível e tem uma carreira sólida e acima da média da mediocridade geral. Não que isso signifique alguma coisa em um mundo onde existe Avril Lavigne ou Justin Timberlake.

A questão está toda aí. Beyoncé é, em última instância, a musa pop dos sonhos mais conservadores e caretas do mundo. Não que eu exija dela ser uma Wendy O. Williams, mas ela é comportada demais, careta demais, sem sal demais.

Quem é Wendy O. Williams? Ó destreinado no mundo do punk rock, a senhorita Williams é a vocalista que se suicidou da icônica banda Plasmatics, ex-atriz pornô, a mais nua das mulheres a pisarem para cantar em um palco e nos seus últimos anos militante dos direitos dos animais e do vegetarianismo Straight edge. Os motivos de seu suicídio são pouco claros, mas ela era o extremo oposto da atual rainha do pop. Confira: http://www.youtube.com/watch?v=Q2eynNh5xHM

Beyoncé não tem a mínima obrigação de ser politicamente correta? É completamente alienada em termos de economia e política mundial, como demonstrado no episódio recente onde ganhou para fazer um showzinho particular pago pelo bolso de milhares e milhares de súditos do ditador Muammar Gaddafi da Líbia. Igualzinho ao que Elis Regina fez quando cantou "O bêbado e o equilibrista", provocando a ira de toda uma casta de velhos militares de um governo nada democrático tupiniquim, sabia? http://www.youtube.com/watch?v=6kVBqefGcf4

Adoro técnica vocal, amo trabalho bem feito. Mas até mesmo em palco Beyoncé parece técnica demais, perfeita demais. O uso de playback poupa o artista e torna tudo mecânico, é certo. A espontaneidade de uma avalanche de gelo de um show dela a torna um maravilhoso produto plástico, idêntico ao estilo de Janis Joplin em uma de suas raras composições, "Mercedes Benz" ( http://www.youtube.com/watch?v=i-4AheUl6ls ) e sua música de "social e poética importância", em suas próprias palavras, cantada com emoção indescritível, técnica péssima e suando às bicas gritando contra o excesso de consumismo.

Não tem a mínima obrigação de ser polêmica. Seu hit absoluto, "Single ladies", tem o horrendo subtítulo "ponha um anel nela", levando-nos a um monstruoso passado recente onde mulheres só tinham algum valor após se casarem (sem contar a coreografia pobre e vergonhosa que deve fazer a coreógrafa e cantora Paula Abdul se esconder debaixo da cama). Madonna lutou para libertar a reprimida sexualidade feminina por tanto tempo para agora o pop ter uma rainha defendendo o mesmo que minhas tias-avós?

Beyoncé, ao contrário do que foi dito por aí, NÃO quebrou o pau com a empresa de cosméticos que branqueou a foto dela usada em uma propaganda pois sua cor negra não combinava com o produto e com a imagem da fábrica.
Igualzinho a Billie Holiday, a menina que se tornou a Deusa do Jazz após ter lutado por anos com uma infância miserável, uma adolescência de prostituta e uma rotina de drogas e mais drogas para se manter acordada para os shows intermináveis exigidos para manter um padrão mínimo de vida (negra, pobre e ex-prostituta não ganhava muito, apesar de sua fama). Billie arriscou toda a sua carreira cantando a canção escrita por um judeu sobre "Strange fruits" nas árvores da Louisiana (os corpos dos negros enforcados pelos brancos sem julgamento, ou mesmo motivo em muitos casos). Confira COM CUIDADO, as cenas são assustadoras: http://www.youtube.com/watch?v=lGNIX4qa38E

Em suma, Beyoncé é uma agente da norma, rebelde como uma camisa pólo, cantando em prol da caretice e da falta de ousadia para encarar um mundo cheio de velhas respostas para novos problemas. Não fala mal de ninguém, não admite erros no sonho americano ou no sistema sócio-político-econômico-emocional-ambiental do planeta.

Ambiental? É, ela usa casacos de pele. Para quem nunca viu como um casaco de pele é feito, pode perguntar a outra grande cantora, Chrissie Hynde, dos Pretenders, que até presa já foi enquanto protestava junto às maiores ONGs de defesa do ambiente.

Estamos mal de musas pop...