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14.6.11

E onde estão as crianças?




Lá na era cenozóica, eu escrevi com alguns amigos uma lisérgica história envolvendo tudo que desejávamos detonar e colocamos a tarefa na mão de um grupo de antiheróis quadrinísticos. Basicamente, a coisa toda era sobre uma MegaCorporação de eletrônicos(!) que roubava crianças no terceiro mundo (!) para vender seus órgãos(!) embora dissesse para sua aliada Igreja fundamentalista norteamericana(!) que ajudava-as a arrumar casa em famílias abastadas e ambas conspiravam(!) para criarem um exército ciborgue ultrareligioso(!) às custas disso tudo.

Nem é preciso falar que a suspensão de crença necessária para engolir isso é quase tão grande quanto a que precisamos para assistir um filme de ação blockbuster. Claro que enfiamos diálogos ferinos, protagonistas absurdos e muitas explosões. Tudo isso para extravasar artisticamente a revolta com o mundo.

No meio dessa massa toda, estava um momento histórico onde o mundo todo tinha algo de errado. E pasmem, ainda estamos nele! E eis que me espanta ver que numa determinada entrevista um membro de uma banda da qual desejaria nunca ter ouvido nem mesmo falar de emocoloridobreganejorock (obviamente não darei a eles a honra de terem seu nome aqui) foi questionado por que raios todas as músicas eram sobre romance, balada e sei lá mais o quê. A criatura responde que não há mais nada do que reclamar então eles fazem só isso.

Mais nada do que reclamar? Em que cúpula de cristal nos picos de Higienópolis ou Ipanema este ser nasceu e foi mantido toda sua vida? Que jornais róseos ele leu na vida? Que televisão com censura dos pais ele pode assistir? Que estradas de tijolos amarelos ele usa para chegar onde se apresenta? Que palcos de diamante e plateia de burgueses à francesa tem nesses shows? Se arte é expressão, o que expressa alguém tão insensível ao que o cerca?

Qualquer ser humano que tenha um único dos 5 sentidos encontra facilmente algo do que reclamar pelo que acontece no mundo. Minha historieta adolescente falava de impunidade dos grandes poderes econômicos, da falta de laicidade dos estados, do fundamentalismo, da exploração dos países terceiromundistas, do abuso infantil, do tráfico humano, da falta de senso de justiça, do uso ilegal e ganancioso da tecnologia, do preconceito, do crime organizado e de pelo menos uns mil assuntos que ganhavam espetada nos diálogos entre a personagem que tentava ir pela lei e a que preferiria tudo feito no esquema olho por olho.

Basicamente, as pessoas esperam por um novo movimento hippie, um novo punk ou revolução francesa. E não metem as caras para mudar nada. O problema é que chegamos no momento onde todo mundo, repito, TODO MUNDO sabe o que é certo e o que é errado. Essencialmente, a humanidade toda sabe que devemos respeitar tudo que tem em volta como respeitamos a nós mesmos. Isso significa que abuso, exploração, preconceito, desrespeito aos direitos das gerações futuras, esgotamente de recursos naturais, desinteresse pelo bem estar alheio e várias outras coisas estão subentendidas. Pela primeira vez nos últimos 200000 anos, é possível sonhar com uma constituição mundial. John Lennon sorri na tumba.

E portanto, agora é a hora de praticar isso, e não esperar grandes impactos externos para nos obrigar. Quando as pessoas reclamam dizendo que o mundo está passivo, é por que não olham para o que está rolando nos países árabes. A primavera árabe simboliza a vez deles colocarem para si mesmos aquilo que boa parte do mundo conquistou na revolução francesa e na carta dos direitos humanos.

Aqui no seu país onde um imbecil diz que não tem nada do que reclamar, é hora de fazer seu papel de indivíduo e botar as mãos na massa sozinho, cobrando aquele em que você votou, reciclando seu lixo, respeitando o direito do cadeirante, assumindo que fez asneira no trânsito ao invés de tentar subornar o guarda... enfim, parando de esperar que alguma revolução venha te ensinar o que deve ou não fazer.

Quem espera que algo de fora lhe diga o que é o certo equivale àquela parcela do povo alemão recebendo Hitler como salvador da pátria e ignorando seus maiores pensadores apontando-o como o monstro que era. Os pensadores, coitados, ou fugiram do país ou foram mortos. O povo que achava que não analisou a coisa por si mesmo até hoje convive com as cicatrizes daquilo.

Exagero? O número de vezes em que você ouviu "ah, é Brasil, é assim mesmo" é o quanto você foi exposto ao conformismo explícito. E um milésimo do quanto foi ao implícito.

17.2.10

Cantoras em ternos de 3 botões

Acabou o carnaval e para todos os lados só se falava de desfiles e suas passistas, de Paris Hilton sendo carregada bêbada, de Madonna e seu chaveiro brasileiro assistindo sambistas sérios obrigados a darem showzinho particular a ela e do clipe de Alicia Keys gravado em Salvador onde Beyoncé se vestiu de brasileira-clichê-de-cartaz-de-turismo-sexual.

Embranquecida?

E é dessa última pessoa que vou falar aqui. Sim, admito, a Beyoncé é uma cantora competente, uma dançarina exemplar, uma musa pop indiscutível e tem uma carreira sólida e acima da média da mediocridade geral. Não que isso signifique alguma coisa em um mundo onde existe Avril Lavigne ou Justin Timberlake.

A questão está toda aí. Beyoncé é, em última instância, a musa pop dos sonhos mais conservadores e caretas do mundo. Não que eu exija dela ser uma Wendy O. Williams, mas ela é comportada demais, careta demais, sem sal demais.

Quem é Wendy O. Williams? Ó destreinado no mundo do punk rock, a senhorita Williams é a vocalista que se suicidou da icônica banda Plasmatics, ex-atriz pornô, a mais nua das mulheres a pisarem para cantar em um palco e nos seus últimos anos militante dos direitos dos animais e do vegetarianismo Straight edge. Os motivos de seu suicídio são pouco claros, mas ela era o extremo oposto da atual rainha do pop. Confira: http://www.youtube.com/watch?v=Q2eynNh5xHM

Beyoncé não tem a mínima obrigação de ser politicamente correta? É completamente alienada em termos de economia e política mundial, como demonstrado no episódio recente onde ganhou para fazer um showzinho particular pago pelo bolso de milhares e milhares de súditos do ditador Muammar Gaddafi da Líbia. Igualzinho ao que Elis Regina fez quando cantou "O bêbado e o equilibrista", provocando a ira de toda uma casta de velhos militares de um governo nada democrático tupiniquim, sabia? http://www.youtube.com/watch?v=6kVBqefGcf4

Adoro técnica vocal, amo trabalho bem feito. Mas até mesmo em palco Beyoncé parece técnica demais, perfeita demais. O uso de playback poupa o artista e torna tudo mecânico, é certo. A espontaneidade de uma avalanche de gelo de um show dela a torna um maravilhoso produto plástico, idêntico ao estilo de Janis Joplin em uma de suas raras composições, "Mercedes Benz" ( http://www.youtube.com/watch?v=i-4AheUl6ls ) e sua música de "social e poética importância", em suas próprias palavras, cantada com emoção indescritível, técnica péssima e suando às bicas gritando contra o excesso de consumismo.

Não tem a mínima obrigação de ser polêmica. Seu hit absoluto, "Single ladies", tem o horrendo subtítulo "ponha um anel nela", levando-nos a um monstruoso passado recente onde mulheres só tinham algum valor após se casarem (sem contar a coreografia pobre e vergonhosa que deve fazer a coreógrafa e cantora Paula Abdul se esconder debaixo da cama). Madonna lutou para libertar a reprimida sexualidade feminina por tanto tempo para agora o pop ter uma rainha defendendo o mesmo que minhas tias-avós?

Beyoncé, ao contrário do que foi dito por aí, NÃO quebrou o pau com a empresa de cosméticos que branqueou a foto dela usada em uma propaganda pois sua cor negra não combinava com o produto e com a imagem da fábrica.
Igualzinho a Billie Holiday, a menina que se tornou a Deusa do Jazz após ter lutado por anos com uma infância miserável, uma adolescência de prostituta e uma rotina de drogas e mais drogas para se manter acordada para os shows intermináveis exigidos para manter um padrão mínimo de vida (negra, pobre e ex-prostituta não ganhava muito, apesar de sua fama). Billie arriscou toda a sua carreira cantando a canção escrita por um judeu sobre "Strange fruits" nas árvores da Louisiana (os corpos dos negros enforcados pelos brancos sem julgamento, ou mesmo motivo em muitos casos). Confira COM CUIDADO, as cenas são assustadoras: http://www.youtube.com/watch?v=lGNIX4qa38E

Em suma, Beyoncé é uma agente da norma, rebelde como uma camisa pólo, cantando em prol da caretice e da falta de ousadia para encarar um mundo cheio de velhas respostas para novos problemas. Não fala mal de ninguém, não admite erros no sonho americano ou no sistema sócio-político-econômico-emocional-ambiental do planeta.

Ambiental? É, ela usa casacos de pele. Para quem nunca viu como um casaco de pele é feito, pode perguntar a outra grande cantora, Chrissie Hynde, dos Pretenders, que até presa já foi enquanto protestava junto às maiores ONGs de defesa do ambiente.

Estamos mal de musas pop...