9.6.09

O fim do mundo já aconteceu e não nos avisaram?

A transição dos 80 pros 90...

O apocalipse foi anunciado umas dez vezes desde que eu nasci.

No fim da guerra do Vietnã, eu era um recém-nascido e diziam que pra dar o troco os EUA iam enfiar bombas no Vietnã, e a URSS ia revidar, acabando com o mundo. Quando o Irã e o Iraque se pegavam, corria algo sobre o colapso da economia aliado a uma guerra que se espalharia pelo oriente médio e trazendo de novo as bombas atômicas. O ambiente pós apocalíptico clássico da época previa um mundo dominado pelos malvados punks, os terrores da classe média americana e seus sonhos de ordem e progresso capetalista.


Com o advento dos computadores, nasceu o fim do mundo pela mão das máquinas.


Com o Reagan no poder, o mundo só não acabou pois na União Soviética havia um careca com um cérebro que evitou uma desgraça. O ponteiro do relógio do apocalipse bateu perto da meia-noite (relógio que inspirou a temática de Watchmen, diga-se de passagem) quando o projeto “Guerra nas estrelas” foi cogitado.


O comunismo caiu na União Soviética e seus militares iam se vingar jogando seu arsenal mundo afora. Você viu? Nem eu.

E aí veio a guerra do golfo, as previsões de Nostradamus casando passo a passo com a escalada do conflito (durante duas míseras semanas).

Então a era dos super vírus. O Ebola matou um monte de gente mas nunca se tornou uma pandemia.

E o mais midiático, o fim do milênio. Não caiu nenhum meteoro na terra, não aconteceu nenhum “bug do milênio” pra jogar nossa tecnologia na idade das trevas, não houve invasão alienígena.

Daí, 11 de setembro. Nada tão relevante pro resto do mundo, mas a mídia da era Bullshit propagava uma era de terroristas superpoderosos. Necas de novo.

Em 2009 temos duas ameaças de fim do mundo: as “Sexy dolls” (dessas eu tive medo, é quase como ver os 4 cavaleiros do apocalipse) e a mais recente gripe suína.

Cantava o REM: It´s the end of the world...

Mas aí me pergunto. E se o mundo acabou mesmo? E se Nostradamus estava certo e o fim do mundo veio com a guerra do golfo? Mais especificamente, na transição dos anos 80 pros 90?


Explico. Com a queda do muro de Berlim, um invento militar se popularizou: a Internet. Mas a internet nasceu de uma idéia hippie dos anos sessenta. Compartilhar informação, descentralizar o conhecimento, comunicar-se com o mundo todo em um clique...

O invento foi adotado nas instalações militares de todo o mundo, em versões vermelhas e azuis. Na mesma época, os hippies trouxeram a revolução de costumes, a liberdade feminina e a igualdade dos indivíduos se espalhou como idéia básica de democracia.


Quando o mundo se viu livre da divisão binária do século XX (Sim, o século XX acabou ali. Mas o século XXI só começou em 2001) os conflitos regionais ressurgiram. Vieram as guerras étnicas da África, do leste europeu e do oriente médio.


No mundo da cultura, a Disney se antecipou e propôs um modelo de novo mundo. E fizeram isso com um filme: “Uma linda mulher” propunha um mundo pós punk, onde os anos oitenta eram enterrados, a putaria acabava e o futuro abraçaria todos que se dispusessem a serem elegantes, divertidos e blasé. A trilha sonora transitava junto aos personagens, começando com a prostituta artificial e meio punk ao som de Peter Cetera ou Christopher Otcasek, para ao fim chegar aos modernos de então, Roxette, tocando para uma mulher natural, sóbria, em tons pastéis e apreciadora de ópera, moderna mas dependente de seu provedor. Pois é, o futuro imaginado era regado a Ace of Base e Roxette, em tons pastéis, cheio de puritanismos e dentro dos conformes.


Mas alguns anos depois veio o grunge. A Internet matou a indústria fonográfica e de filmes como a conhecíamos, e embora estas ainda agonizem, logo o esqueleto delas ruirá. Governos opressores se sacodem em uma luta inglória para conter a informação que chega ao seu povo de maneiras absolutamente incontroláveis, que mudam e crescem a cada dia. Todos podem postar blogs, fotologs, e terem perfis em comunidades que conversam com o mundo todo. Todos sabem que é ridículo ser preconceituoso, que governos falham, que votos são melhores que nada, que liberdade é um direito. Só não agem como deveriam, mas sabem.


O mundo com o o conhecíamos foi pulverizado em menos de dez anos. Os anos 90 simplesmente destruíram todas as certezas, tornaram todas as ficções científicas retratos ridículos do porvir (com a gloriosa exceção de alguns poucos e bons autores do Cyberpunk, e olhe lá: hoje “Neuromancer” está logo ali).

Nostradamus estava certo, então: tudo que imaginávamos está mudado. O mundo que começou a nascer após a segunda guerra mundial é globalizado, a informação desconhece limites, e apesar de todos os preconceitos, visões míopes de política e raça, dos danos ao meio-ambiente, é consenso geral uma linha de como o futuro deve ser. Existem normas na guerra, embora nem sempre seguidas. Existe a idéia de que racismo, sexismo, fanatismo são errados. Tudo isso era impensável nos tempos de H.G. Wells ou Lênin.


Bem vindo ao mundo pós-apocalíptico.

O deserto está sendo providenciado pela devastação florestal e pela fome de bilhões e bilhões de seres humanos. Você carrega um celular que acessa internet e faz as vezes de memória de vez em quando, e alguns o usam conectado constantemente ao ouvido num fone. Usa carros híbridos para combustível criados por multinacionais em bancarrota, e logo, movidos a hidrogênio. O Brasil é uma das economias mais fortes do mundo no mundo da ficção cientifica de seu hoje. Temos epidemias de obesidade e sedentarismo, em breve isso nos tornará dependentes de mais e mais máquinas. Marte já tem planos de colonização para daqui a algumas décadas, e os protótipos estão sendo testados. Seu computador aprende com seus erros, e os corrige. Logo ele corrigirá você.


Você é o punk ao lado da personagem da Tina Turner em “Mad Max III”.

1.6.09

War pigs

"Gripe suína provoca zumbis", ouviu essa?

Aproveitando a onda histérica criada, não sem certa dose de justificativa, com a gripe H1N1-A, até então chamada de gripe suína (em paralelo à gripe aviária, com a diferença que o vírus de agora NÃO FOI encontrado em porcos nesse surto), um espertalhão criou um site falso copiando o lay-out da BBC e espalhou por ele uma notícia de que, após algumas horas da morte clínica declarada de alguns pacientes da tal gripe, eles se levantaram, com o cérebro comprometido pela falta de oxigenação causando um surto de violência que durava alguns minutos. Os "zumbis" morriam após este surto, definitivamente.

Dezenas de sites pseudo-informativos espalharam a notícia falsa, comprovando a regra que em tempos de CNN, Foxnews, internet e Discovery channel os jornalistas esqueceram-se que as histórias precisam ser comprovadas. Foi apenas um dia, mas muita gente ficou impressionada enquanto não leram as erratas do dia seguinte.

"War pigs" é uma música do Black Sabbath, ó desavisado leitor com menos de 18 anos. Em uma época de guerra fria, era mais uma música lembrando que, no final das contas, quem resolve criar guerras não são as populações dos países, mas meia dúzia de engravatados artríticos fechados em um "bunker" com seus dólares e filhos em idade de alistamento. O Legião Urbana fez "O senhor da guerra" com a mesma idéia.

E a manchete acima liga-se a isso como?
Bom, a fúria sem canalização das pessoas neste nosso mundo com o politicamente correto encontrou uma solução para video-games, filmes B e desenhos animados trucidarem humanóides e gastar as baterias de fúria das pessoas que os assistem. É só transformar os inimigos em zumbis e a desculpa para você matar aquele ser chato na tela já está feita.

A histeria sobre a gripe H1N1-A é até certo ponto justificada. Gripes se espalham rápido, e uma delas com alta taxa de mortalidade é preocupante sim, em especial se chegar a áreas pouco estruturadas sanitariamente. Os 2 casos na Jamaica noticiados ontem, por exemplo, preocupam muito mais que os 100 casos do Japão.

Ela é muito perigosa? É, mas menos do que a gripe espanhola, com a qual muitos a comparam, especialmente por que na época da gripe espanhola a tecnologia de medicamentos estava engatinhando, e antibióticos e antivirais eram apenas um sonho. A letalidade dela é bem menor que a da gripe aviária, também, mas como surgiu ao lado do país mais escandaloso do mundo, a cobertura está tomando proporções alarmantes.

Agora somemos: uma crise financeira, um ditador falando duro com seus vizinhos, uma epidemia de gripe... é quase o cenário que antecedeu a segunda guerra mundial! Historiadores estão dando risada do potencial de pânico disso tudo.

A gripe suína não é algo com o qual se criar neuroses. Existe epidemiologia pra isso. Rastreia-se toda uma cadeia de contactantes do caso com cliques em uma telinha. Interrompe-se uma transmissão com antivirais. Monitora-se sinais vitais por aparelhos minúsculos que transmitem os dados a centenas de médicos em todo o mundo.

E não teremos zumbis para matar. Quem quiser curtir um clima bélico deve se mudar para uma das Coréias e vivenciar uma guerra que está acontecendo ininterruptamente há mais de meio século, com uma trégua que está longe de ser satisfatória reinando há algumas décadas.

25.5.09

"O espaço, a fronteira final...

...Estas são as viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos para a exploração de novos mundos, para pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve!"

E assim começava a icônica abertura de "Jornada nas estrelas", a série mais cultuada de todos os tempos. Promovendo um futuro onde a grande ocupação da humanidade seria angariar conhecimento, explorar, conhecer novos povos e sem absolutamente nenhuma, NENHUMA menção a dinheiro, ela trazia o futuro mais fantástico já espalhado pelas mentes da grande população.

"Jornada nas Estrelas" é realmente absurda. Personagens geniais; uma linha dramatúrgica coerente antenada com o que havia de mais moderno havia na cultura da época (e ainda é incrivelmente atual), que é o realismo mericano de Arthur Miller e Tennesse Williams; atualidade e percepção da realidade como nada antes ou raramente depois...

E fui ver o filme. Muitos o acusaram de espetacularizar o tema, numa espécie de síndrome de adolescentização que é típica do cinema pós-"Guerra nas estrelas". Discordo, Jornada sempre teve ação, mas ela não era a da era dos Spielbergs e James Camerons que nasceu nos anos 80. A crítica fica exatamente aí onde essas duas extremidades da Sci-Fi se encontram.

"Guerra nas estrelas" é estrutura narrativa mítica básica. Conto de fadas mesmo. Como coloquei lá em cima, "Jornada" é parte de uma corrente dramática que visa discutir a atualidade e se embrenhar em um mundo moderno, onde existe psicologia, discussão sobre hábitos e revolução de costumes.

Comparando bem, o filme de Lucas é um lindo quadro de naves espaciais pintado com carvão, e a série de Roddenberry é a imagem de uma guerra de hoje em dia em 3D feita no CorelDraw mais moderno que você conhece. Além disso, as linguagens de TV e de cinema são diferentes.

Mas "Jornada" é revolucionária desde sempre. Medicina não-invasiva? o hoje subestimado personagem McCoy carregava consigo um ultrassom/tomógrafo/analista clínico portátil e sempre estava um passo à frente dos burocratas ao atender as pessoas. Meio-ambiente? Tá lá, discutido com maestria no episódio dos bichinhos peludos que se multiplicam sem parar. Preconceito e guerras ideológicas? No episódio dos povos com a cara metade preta e metade branca. Mais preconceito? Uhura foi a primeira atriz negra regular em uma série. Guerra fria? Os klingons eram parecidos com o clichê americano para russos, mas havia um russo na tripulação. E um japonês, quando os traumas da 2º guerra ainda eram recentes e o Vietnã estourava.

Tudo isso pra dizer: Vão ver o filme. Entendam que é um universo paralelo ao que nós já conhecemos, que os personagens são imaturos, que o cara saído do senhor dos anéis, o saído do Heroes e o cara desconhecido são bons na reconstrução de seus ícones. A Uhura ganha destaque inédito, embora a relação que ela cria com os demais personagens sempre tenha sido insinuada na velha série. Há um porém: o vilão é péssimo. Se o objetivo era criar um babaca, eles conseguiram. Nunca houve um vilão tão sem graça em um filme com tanto orçamento.

Mas eu sempre me arrepiarei com a abertura. Sou da geração que cresceu admirando exploradores, pessoas cuja fome por saber era maior que os problemas mundanos. Meu ídolo supremo dos quadrinhos ironicamente é o Patinhas de Carl Barks, que por dinheiro explorava o mundo, e no final sempre nos deixava com vontade de saber mais sobre os povos que ele conhecia. Nos documentários, o Cousteau ia audaciosamente onde ninguém jamais afundara. Na TV, Kirk, McCoy e Spock. Uma era de conhecimento advinda dos primeiros desbravadores daquelas civilizações do outro lado do mundo. Marco Polo foi o primeiro tripulante da Enterprise.

E claro, há um sabor todo especial em ver Leonard Nimoy recitando a frase "Vida longa e próspera" para ele mesmo mais novo.

PS:  A atriz que interpretava Uhura na TV queria desistir da série, pois sofria na mão dos produtores. Martin Luther King em pessoa a convenceu a ficar para dar á comunidade um símbolo. Posteriormente, ela se tornou responsável na NASA por contratações de minorias, abrindo espaço para negros irem realmente para o espaço como ela já fora ficcionalmente. George Lucas não tem uma história como essa para contar sobre seus filmes.

27.4.09

Invasores!

Dique de castor em Ushuaia, Argentina.


A maioria das pessoas lembra-se a palavra "invasão" quando se refere a alienígenas verdes e mal-humorados despejando bombas e lasers sobre os pobres galãs hollywoodianos ou ao falar de episódios bélicos diversos, cujos exemplos são incontáveis.
Não deveria causar espanto, portanto, a seriedade imensa dada pelos ecólogos do mundo todo à questão das espécies invasoras. É uma invasão alienígena nos mesmos moldes dos filmes e romances de ficção, pois os invasores são mais dotados de armas de ataque que os pobres nativos, e igualmente bélica, pois suscita um empreendimento maciço para barrar e exterminar os invasores. Expulsão é quase impossível. Lembremos que a espécie humana é invasora da maior parte de sua atual distribuição geográfica.

A complexidade da questão é maior do que aquela envolvendo o efeito estufa ou o uso de energia nuclear. Para estas duas, as soluções são conhecidas, mas falta esforço direcionado para resolvê-las. Já no caso dos invasores de outras terras, é uma imensa dificuldade descobrir como agir para resolver o pepino. E mesmo delimitar quem é e quem não pode mais ser considerado invasor. O Dingo australiano, por exemplo, deve ser considerado invasor?

Assim, causa-me absoluto espanto a coluna publicada no Estadão de domingo, 26 de abril de 2009, de autoria do Gilles Lapouge, sobre as espécies invasoras da Europa.
Lapouge é um babaca. Suas opiniões são terríveis. Do alto de seus 82 anos e prêmios literários, se presenteou com o direito de falar besteira. Mas dessa vez ele pisou no meu terreno.

Na coluna, ele reclama das espécies que hoje invadem a Europa e causam prejuízos na casa dos bilhões de euros. Sério? Quando ele viveu no Brasil ele prestou atenção na fauna que estava nas cidades? Ele diz que "pássaros, peixes, mamíferos, insetos e flores vindos do outro lado do mundo estão cobrindo suas paisagens, semeando a discórdia, a desordem ou a morte". Depois, afirma que "Outrora, as ilhas do Taiti eram monótonas, apagadas, velhas. bastou Bougainville, Wallis e Cook descobrirem essa ilha para ela começar a brilhar com as flores e os frutos trazidos nos porões dos navios europeus".

Temos dois pesos e duas medidas. As espécies agressivas e competidoras levadas para o Taiti não causaram discórdia, desordem e morte? Quantas plantas nativas não foram devastadas po causa destas competidoras, postas em um lugar sem predadores, doenças e herbívoros que as controlam em seu habitat natural? Quantos animais não morreram por causa destas novas espécies e com o sumiço das nativas? Quando florestas tropicais podem ser consideradas "monótonas, apagadas e velhas"??? Parafraseando o popular ficcionista Michael Crichton em Jurassic Park, as plantas são seres agressivos e que lutam terrivelmente com seus inimigos vegetais, em batalhas químicas e de dispersão que fazem nossas armas químicas parecerem brinquedos.

Ele reclama dos danos causados pelo ratão do banhado (ele lembra que este roedor transmite leptospirose) e pelo mergulhão nas coleções aquáticas européias. Esqueceu-se do aguapé, levado para lá pelos jardineiros fascinados pela linda flor roxa que estes dão, sem imaginar os danos à navegação que ela causa em um lugar sem peixes-boi pra comê-la.

Aposto que o ministério do meio-ambiente da Argentina rirá quando ler isso, lembrando-se dos europeus que enfiaram o castor (e a doninha) na Argentina para ter um animal de caça novo pra produção de peles. Os prejuízos causados pelos castores são de milhões de pesos argentinos. A devastação florestal é incalculável.

Proponho uma troca. Os europeus pegam todos os ratões do banhado e mergulhões de seus açudes e nos mandam de volta. Podem mandar também todo seu aguapé para a Amazônia. Eles podem mandar os lagostins de volta para o Mississipi também: aposto que vai ter jambalaia para todos por meses!

Em troca, nós mandamos seus castores, ratazanas, ratos de telhado, baratas e mosquitos de volta. Sim, ratos e baratas são do velho mundo, eles não existiam no Brasil até sermos invadidos pelas caravelas. E aposto que os ratos do velho mundo trouxeram muito mais leptospirose para a américa desde 1492 do que todos os ratões do banhado juntos já fizeram desde o início dos tempos em todo o mundo.

Mandamos também o mexilhão dourado que entope a hidrelétrica de Itaipu, a truta que invadiu os riachos de montanha de Minas Gerais e São Paulo, as pombas, as dezenas de espécies de gramíneas testadas para pastos e que hoje destroem nosso cerrado e os pampas, os pardais, as árvores de Ficus, os eucaliptos invasores da mata atlântica de volta para a Austrália, os búfalos que estão acabando com a floresta de Rondônia, os javalis que destroem plantações feitas com o suor de muitos meses de caboclos do sul e sudeste, dentre muitos outros exemplos.

Os chuchus, as abelhas, os Aedes aegypti, os caramujos gigantes africanos, as rãs-touro, as tilápias, as lebres européias, as braquiárias e todos os ratos e camundongos, todas os indivíduos de todas estas espécies, eu faço questão de enviar direto para casa do senhor Lapouge. Estas espécies que quebraram a monotonia envelhecida de nossas florestas, campos e rios. Que destroem o ecossistema mais rico de todo o planeta.

E nem vou falar das doenças e vírus.

Não me constam muitas espécies levadas por australianos, brasileiros, nigerianos, chineses, mexicanos, hindus, vietnamitas, canadenses, estado-unidenses, egípcios, afegãos ou seja lá de onde for para a Europa. Estas espécies, se estão aí, foram levadas por europeus.

Claro, a disseminação de espécies pela Europa se deve também ao aquecimento global. Hoje espécies tropicais encontram condições de vida antes inexistentes em terras tão ao norte. Há periquitos em Londres hoje. O transporte acidental também é, e foi, imenso.

Portanto, se este texto foi criado pensando no Brasil, lamentemos a imensa desconsideração dele com a realidade dos países que sofreram a invasão das espécies levadas para cima e para baixo pelos europeus. Perdão, senhor Lapouge. O convido a passar mais alguns anos no Brasil ou Argentina, na Austrália ou no Taiti, e ver o que as espécies invasoras fazem com os ecossistemas destes lugares.

E, em sua responsabilidade como correspondente e divulgador, não agir como invasor, mas como parte destes povos que o acolhem.

19.3.09

Quem vigia os cineastas?

Alan Moore é um gênio. Maluco, beirando o eremita, adorador de um Deus-serpente romano obscuro, estudiosos de cabala, alta-magia, paganismo, bruxaria tradicional bretã e escritor de romances e quadrinhos. Estes últimos principalmente.
Foi onde o conheci. Gostaria de dizer que foi antes de todos mundo no Brasil, nas histórias do Monstro do Pântano publicadas escondidas em "Novos titãs" lá no começo dos anos oitenta...

Que nada. Foi em plena onda de marketing em volta do "Batman" do Tim Burton. "O cavaleiro ds trevas" de Frank Miller e "A piada mortal" do Moore eram sempre citadas como as fontes de onde o filme bebeu. Eu, nunca afeito a super-heróis, fui fisgado pela Vênus do marketing e entrei na onda. Em um ano, era expert em quadrinhos da DC comics.
E elegi Moore como o escritor supremo depois de ler o Monstro do Pântano, Constantine, Liga extraordinária e, claro, V de vingança. E depois de Watchmen, estou esperando até hoje algo ser publicado com o mesmo impacto.

De onde chego nos cineastas. As adaptações cinematográficas das obras de Moore, inevitavelmente toscas pela impossibilidade de transferir a riqueza dos detalhes criados nas obras dele, ganharam um novo patamar depois de Watchmen.

Para ilustrar o quadro, desde a adaptação de "Liga extraordinária", ele entrou numa cruzada contra as adaptações de suas histórias. Com razão: todas são horríveis, com cenas gloriosas onde brilham as idéias, mas sempre terríveis em sua totalidade. "Do inferno" virou sessão da tarde, "Liga..." é um lamaçal infantilóide. "V de vingança", se não foi uma monstruosidade, deixa de lado a essência da idéia, que é a dos males de qualquer sistema de governo feito por elites. O problema destas obras é que, por alguma armadilha do mercado, elas são da Time-Warner, que as publicou originalmente através de suas subsidiárias, e nunca, NUNCA, deram o devido crédito ao autor por elas e não precisam pedir autorização para usá-ls como bem entenderem. Lembremos que foram criadas em uma era anterior ao poder autoral de hoje em dia.

E Watchmen (Teriam os Simpsons acertado?)?
Quando chamaram Zack Snyder para adaptar o infilmável petardo de 12 partes, negociado em Hollywood há uns vinte anos (na época, Moore até apostava na idéia, e pretendia se envolver na criação do roteiro), as fichas eram que ele conseguiria o nível de fidelidade necessário, coisa já feita por ele em "300", do Frank Miller.
E aí está o problema. Frank Miller escreve lindas pancadarias, gente durona e cenas memoráveis, mas está anos luz aquém da habilidade de Alan Moore de criar personagens complexos e sutilezas e deformidades psicológicas.
"Watchmen" saiu lindo, e visualmente é mais fiel do que qualquer outra coisa já transposta dos quadrinhos para as telonas (veja ao lado o grau de fidelidade).
Cada mínimo detalhe é bem feito, bem desenhado, bem criado. O Dr. Manhatan é fantástico. Os uniformes, se não são idênticos, transmitem o que a obra exigia, com requintes de percepção mental de seu significado (a roupa do coruja, homenageando os heróis tecnológicos exagerados de hoje, é prova disso). O Rorschach é literalmente transposto para a tela.
E até o final modificado, com o perdão dos admiradores da "Lula alienígena" criada por Ozymandias nos quadrinhos, caiu como uma luva, uma solução elegante, linda e à altura dos sonhos da obra original.
O que não funciona, então?

O desenvolvimento das pessoas. Seriam coisas simples: mudanças de palavras básicas, planos de olhares, mudanças bestas nas cenas intimistas e de diálogos... do jeito como saiu, todo mundo é raso como um pires. A escolha de alguém tão frágil para fazer Ozymandias e da "mocinha com cara de Gossip girl" não ajudaram dentro da escolha de atores. As cenas sentimentais são dirigidas com o pulso de uma vovozinha com mal de Parkinson e os hormônios de uma criança de 12 anos. cenas que funcionam em quadrinhos, como o "Smiley" na face de Marte, poderiam ter ficado de fora se isso significasse uma frase a mais para entendermos o cérebro do Coruja ou as motivações de Adrian Veidt. As simplificações, como o poder de despertar memórias dado ao Dr. Manhatan pelo diretor, também são de doer.

Portanto, se querem algo de encher os olhos, cheio de efeitos especiais e uma história interessante, podem ir ver o filme. Eu, pessoalmente, torço para sair uma versão do diretor com uma hora a mais dedicada apenas a destrinchar os bons e maus sentimentos dos personagens. E que incluam "Os contos do cargueiro negro" em suas cenas!

27.1.09

Caso quente


"Cold case" é um seriado exibido na televisão a cabo (Warner channel) e na TV aberta como "Arquivo morto" (SBT) acerca de uma unidade de investigação de casos arquivados e sem solução. Sem entrar no mérito da existência ou não de algo equivalente na polícia brasileira (teria muito, mas muito mais trabalho que todo o resto da polícia), queria falar aqui sobre o principal ponto a favor da série:

Todo mundo é importante.


Alguns anos atrás, lendo uma história em quadrinhos do Arqueiro Verde, onde ele e o Questão se unem para capturar traficantes de armas, ele responde, em meio a divagações sobre a "Arte cavalheiresca do arqueiro Zen", à questão do seu colega (cujo codinome vem da enormidade de perguntas feitas durante toda sua carreira a qualquer um) sobre seus motivos para ir atrás daquele caso em particular ao invés dos habituais malabarismos atrás de vilões fantasiados.

Simples. Uma criança foi morta em um avião sequestrado por uma arma translúcida ao raio X vendida por aquela gangue. Ele lembra que aquela criança poderia ter sido a descobridora da cura para o câncer, um excepcional jogador de baseball ou simplesmente um cara legal. Ninguém tem o direito de interromper o potencial de outra pessoa.

O Arqueiro Verde é personagem esquerdista assumido, mas a questão não é essa. "Cold case" se baseia integralmente nesta premissa. Todas, TODAS as vítimas mortas a séculos e cuja morte é investigada décadas depois pela equipe da senhorita Lili Rush são pessoas que poderiam ter mudado o mundo. São sempre pessoas caridosas, mesmo quando não aparentam, com enorme potencial para o bem, de vida difícil e em geral morrem por não abdicarem de seus princípios. dia ou outro, serão justiçadas, e a segunda mensagem do seriado poderia ser "não importa quem você seja hoje, a era de impunidade está acabando e serás responsável por teus passos anteriores".

A equipe de investigação é um show a parte. A protagonista é aquela coisa de sempre, mas os dois veteranos são fantásticos e o segundo investigador, interpretado pelo gorducho Jeremy Ratchford, é um ator de fazer inveja a muito oscarizado por aí. Rush sempre vê as vítimas sorrindo para ela ao fim dos episódios, quando a justiça foi feita, e alguns pensam ser uma série de temática espírita. nada mais incorreto. É uma série de investigação de estilo pré-CSI, onde as provas analisadas por ultra-tecnologia são substituídas pela boa e velha investigação dedutiva. Quando eu escrevo histórias de investigação, me inspiro neste tipo de narrativa. Estou de saco cheio de máquinas tomando o lugar de Sherlock Holmes.

Todos têm potencial para serem pelo menos pessoas legais. Toda pessoa perdida é um potencial perdido. Cada caso deixado de lado é um desestímulo para quem tenta ser legal. Todo ato de corrupção faz das pessoas boas as palhaças da sociedade.

Que muitas pessoas vejam "Cold case" e reflitam. Afinal, só eu li a história do Arqueiro Verde, mas todo mundo tem a emissora do homem do baú em casa.

E se lembrem do potencial a ser estimulado nos outros e em si mesmos.

1.1.09

O ano em que Dercy nos deixou.


2008 vai embora sem traumas. Por mim ele pode acabar e me deixar em paz logo. 2009 se configura muito mais promissor, como um vasto campo onde se escondem novidades e tesouros só visíveis sem a capa de previsibilidade dos últimos tempos.
E não quero nada mais com um ano onde Dercy Gonçalves morreu.
Dercy Gonçalves, a última grande representante do teatro de revista ainda na mídia, nos deixou, e vai fazer falta sua subversão nestes tempos de papas na língua para tudo. Na foto ao lado ela já tinha idade para ser chamada de "senhora", e responderia com um delicado "Senhora é a putaqueopariu"!
Foi um ano para acabar com certezas e apagar o passado e as travas do tempo.

Bettie Page também se foi.
Para os desavisados, Bettie Page foi a maior Pin Up da história e, sob uma ótica simbólica, um dos pontos altos que criaram a modernidade feminina.

Cyd Charisse idem. As pernas mais bonitas de Hollywood e um das artistas supremas da era dos musicais.
Há quem diga o papel desta trinca na libertação feminina é tão grande quanto o do episódio da queima de sutiãs.

Fernando Torres, expoente de sua geração e um dos maiores atores que já pisaram nos palcos brasileiros, nos deixou (e à sua viúva e sobrevivente, Fernanda Montenegro) não recebeu metade das homenagens merecidas.

E foi o último ano da era Bush, causador do colapso econômico mundial com sua (falta de) política econômica. Ano do reerguimento do conflito entre Israel e Palestina.
Em suma, foi um ano onde acabou o passado, derrubou muros e pontes e deixa espaço livre para novas e diferentes formas de arrumar as coisas.

Um novo tempo começa com novos governos (Obama?), novos macacos, novas universitárias, novos caminhos e novas opostunidades, além de uma outra disposição em ver as coisas. Planejar é sempre bom.
Vou sentir saudades de muita coisa, e para mim vieram tantas coisas boas durante este ano que se torna quase hipócita desejar o começo de 2009. Mas deixemos o passado para trás.

Alguém precisa tomar o lugar desse povo todo que nos deixou!