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7.9.11

Não quero cachorro



Durante cinco anos trabalhei com Vigilância em Saúde na prefeitura de Sampa. Embora os dois terços desta área compostos de epidemiológica e sanitária fossem parte do que eu fazia, quase todo meu tempo era dedicado ao terço da vigilância ambiental, especialmente zoonoses. E das trocentas coisas inclusas em Vigilância em saúde ambiental, uma chama mais atenção quando eu falo desta época: Maus-tratos a animais.

Minha equipe tinha uma dupla dedicada a peneirar os casos de fofoca entre vizinhos, implicâncias com animais alheios etc dos casos que configuravam mesmo maus-tratos. E lá estava eu, a veterinária-braço-direito e/ou o outro biólogo-braço-esquerdo da equipe para ver o que acontecia.

Sempre era assustador.

Hoje, nas redes sociais que perfazem nossa vida virtual substituta das ruazinhas tranqüilas de vila, recebo dúzias de chamados para ações pelos cães, pelos gatinhos abandonados, pelos pobres irmãos que não podem se defender. E apoio todas estas ações. Só o que percebo em quase todas é uma certa ingenuidade. Não é uma questão de “se cada família adotar um, a gente se livra do problema”. Nem todos devem ou podem ter bicho. Nem todo bicho na rua foi abandonado. Nem toda boa ação pro bicho na rua é boa a longo prazo. Nem todo bicho pode ser salvo. Nem todo Pit Bull pode ter o comportamento recuperado.

É ponto pacífico que o problema nunca é o bicho, é sempre a pessoa que abandona, a que coloca comida para os da rua e estimula sua procriação, a que acumula animais no quintal achando que assim faz uma boa ação. Precisei fazer muitos que se diziam protetores arrumarem donos para metade de seus 18 cachorros por que isso simplesmente é contra a lei e contra a idéia de fazer o bem para eles. Não dá para ter 18 cachorros saudáveis e felizes num quintal comum de cidade grande: eles ficam estressados, incomodam com toda razão os vizinhos, cheira mal, gastam tempo demais do dono (que assim perde qualidade de vida) e são um foco sério de doenças para todos os bichos, humanos ou não, do entorno.

E eu ouvia coisas como:
- “Eles ficam melhor aqui do que na rua” (não, não viviam quase nunca, e na rua eles não tinham comida à vontade para fazer dúzias de filhotes);
- “Por que a prefeitura não faz campanha de castração em massa?” (custa muito caro, e se alguém diz que está gastando os parcos recursos que realmente chegam na ponta da hierarquia para cuidar de bicho, a sociedade surta. Agora, existem projetos nesse sentido funcionando, só não se pode obrigar ninguém a castrar seu bicho);
- “E vacinação pública contra cinomose?” (o poder público tem que se preocupar com a saúde das pessoas, não a dos cães. O dono é quem deve arcar com problemas dos seus bichos);
- “Ah, você devia ter tirado todos os cachorros dela!” (não,não devia. Eles estão bem em menor número agora OU eles podem todos ficar pois são bem tratados OU ela ia arrumar o dobro se eu desse esse baque psicológico nela);
- “Multa logo ele!” (adiantaria? E é melhor fazer a pessoa se convencer de que você quer resolver o problema COM ela, ainda que demore um pouco mais, e não angariar grana para a prefeitura);
- “Eu já tinha essa boiada aqui anos antes desse bairro aparecer” (é, BOIADA em São Paulo. Lidei com duas na pequena subprefeitura que eu cuidava. E de fato eles estavam lá antes dos bairros. NÃO é contra a lei ter bovinos em área urbana, mas porcos sim);
- “Eu tenho medo do meu cachorro. Vai vacinar ele lá em casa para mim?” (é contra a lei ir vacinar em casa ou levar a vacina. E ter medo do próprio cachorro é sinal de que você não devia ter um);
- “Minha filha deficiente gosta dos 48 gatos dela” (os gatos moram bem num quarto de 3x5 m? Se ela adoecer por isso a culpa é dos gatos?);

... e por aí vai. Conto qualquer história desejada numa mesa de bar. Em nenhum momento falei dos cachorros soltos pelos donos que vão sair de férias, que se cansam deles depois de adultos e com personalidade, dos gatos torturados por futuros assassinos seriais, das promessas de campanha dos vereadores “verdes”. Zilhões de outras questões resumidas no fato de que a sociedade brasileira não sabe lidar com animais de estimação, muito menos (outro assunto, de quem já cuidou de 148 saguis e 52 papagaios resgatados de tráfico) com animais silvestres “criados” em casa.

O problema, para variar, não é nossa exclusividade. Basta assistir “O encantador de cachorros”, “Distrito animal”, “Animais em perigo” e vários outros para notar que nem mesmo é incomum lá nos “estrangêro” (eu morria de inveja dos recursos do pessoal do “Distrito...”). A TV americana conseguiu capitalizar as investigações de maus tratos e usar isso como ferramenta de conscientização. As parcas tentativas de fazer isso aqui no Brasil esbarram na mesma ingenuidade das postagens pedindo para ajudar o cachorrinho: Batem na trave do piegas, não tocam de fato as pessoas e nem as assustam, e não entram no gol da conscientização.

Para finalizar, eu sou a favor de vender cachorros já castrados, chipados, com manual de instrução e uma taxa que seja usada para projetos de castração pública. De preferência, promover a adoção de animais resgatados ao invés da venda. Perdoem-me os radicais, mas impedir o sacrifício de animais pode ser um tiro no pé em caso de epidemias, situações de risco à integridade da população ou de multiplicação absurda que se vê em certos lugares. Quem abandona cachorro ou gato na rua devia ser preso por uns cinco anos. E penso que já tem gente o bastante pensando nos domésticos para me deixar livre para pensar nos silvestres.

Hoje, antes de dormir, afague seus bichos. Eles precisam de você.

27.4.09

Invasores!

Dique de castor em Ushuaia, Argentina.


A maioria das pessoas lembra-se a palavra "invasão" quando se refere a alienígenas verdes e mal-humorados despejando bombas e lasers sobre os pobres galãs hollywoodianos ou ao falar de episódios bélicos diversos, cujos exemplos são incontáveis.
Não deveria causar espanto, portanto, a seriedade imensa dada pelos ecólogos do mundo todo à questão das espécies invasoras. É uma invasão alienígena nos mesmos moldes dos filmes e romances de ficção, pois os invasores são mais dotados de armas de ataque que os pobres nativos, e igualmente bélica, pois suscita um empreendimento maciço para barrar e exterminar os invasores. Expulsão é quase impossível. Lembremos que a espécie humana é invasora da maior parte de sua atual distribuição geográfica.

A complexidade da questão é maior do que aquela envolvendo o efeito estufa ou o uso de energia nuclear. Para estas duas, as soluções são conhecidas, mas falta esforço direcionado para resolvê-las. Já no caso dos invasores de outras terras, é uma imensa dificuldade descobrir como agir para resolver o pepino. E mesmo delimitar quem é e quem não pode mais ser considerado invasor. O Dingo australiano, por exemplo, deve ser considerado invasor?

Assim, causa-me absoluto espanto a coluna publicada no Estadão de domingo, 26 de abril de 2009, de autoria do Gilles Lapouge, sobre as espécies invasoras da Europa.
Lapouge é um babaca. Suas opiniões são terríveis. Do alto de seus 82 anos e prêmios literários, se presenteou com o direito de falar besteira. Mas dessa vez ele pisou no meu terreno.

Na coluna, ele reclama das espécies que hoje invadem a Europa e causam prejuízos na casa dos bilhões de euros. Sério? Quando ele viveu no Brasil ele prestou atenção na fauna que estava nas cidades? Ele diz que "pássaros, peixes, mamíferos, insetos e flores vindos do outro lado do mundo estão cobrindo suas paisagens, semeando a discórdia, a desordem ou a morte". Depois, afirma que "Outrora, as ilhas do Taiti eram monótonas, apagadas, velhas. bastou Bougainville, Wallis e Cook descobrirem essa ilha para ela começar a brilhar com as flores e os frutos trazidos nos porões dos navios europeus".

Temos dois pesos e duas medidas. As espécies agressivas e competidoras levadas para o Taiti não causaram discórdia, desordem e morte? Quantas plantas nativas não foram devastadas po causa destas competidoras, postas em um lugar sem predadores, doenças e herbívoros que as controlam em seu habitat natural? Quantos animais não morreram por causa destas novas espécies e com o sumiço das nativas? Quando florestas tropicais podem ser consideradas "monótonas, apagadas e velhas"??? Parafraseando o popular ficcionista Michael Crichton em Jurassic Park, as plantas são seres agressivos e que lutam terrivelmente com seus inimigos vegetais, em batalhas químicas e de dispersão que fazem nossas armas químicas parecerem brinquedos.

Ele reclama dos danos causados pelo ratão do banhado (ele lembra que este roedor transmite leptospirose) e pelo mergulhão nas coleções aquáticas européias. Esqueceu-se do aguapé, levado para lá pelos jardineiros fascinados pela linda flor roxa que estes dão, sem imaginar os danos à navegação que ela causa em um lugar sem peixes-boi pra comê-la.

Aposto que o ministério do meio-ambiente da Argentina rirá quando ler isso, lembrando-se dos europeus que enfiaram o castor (e a doninha) na Argentina para ter um animal de caça novo pra produção de peles. Os prejuízos causados pelos castores são de milhões de pesos argentinos. A devastação florestal é incalculável.

Proponho uma troca. Os europeus pegam todos os ratões do banhado e mergulhões de seus açudes e nos mandam de volta. Podem mandar também todo seu aguapé para a Amazônia. Eles podem mandar os lagostins de volta para o Mississipi também: aposto que vai ter jambalaia para todos por meses!

Em troca, nós mandamos seus castores, ratazanas, ratos de telhado, baratas e mosquitos de volta. Sim, ratos e baratas são do velho mundo, eles não existiam no Brasil até sermos invadidos pelas caravelas. E aposto que os ratos do velho mundo trouxeram muito mais leptospirose para a américa desde 1492 do que todos os ratões do banhado juntos já fizeram desde o início dos tempos em todo o mundo.

Mandamos também o mexilhão dourado que entope a hidrelétrica de Itaipu, a truta que invadiu os riachos de montanha de Minas Gerais e São Paulo, as pombas, as dezenas de espécies de gramíneas testadas para pastos e que hoje destroem nosso cerrado e os pampas, os pardais, as árvores de Ficus, os eucaliptos invasores da mata atlântica de volta para a Austrália, os búfalos que estão acabando com a floresta de Rondônia, os javalis que destroem plantações feitas com o suor de muitos meses de caboclos do sul e sudeste, dentre muitos outros exemplos.

Os chuchus, as abelhas, os Aedes aegypti, os caramujos gigantes africanos, as rãs-touro, as tilápias, as lebres européias, as braquiárias e todos os ratos e camundongos, todas os indivíduos de todas estas espécies, eu faço questão de enviar direto para casa do senhor Lapouge. Estas espécies que quebraram a monotonia envelhecida de nossas florestas, campos e rios. Que destroem o ecossistema mais rico de todo o planeta.

E nem vou falar das doenças e vírus.

Não me constam muitas espécies levadas por australianos, brasileiros, nigerianos, chineses, mexicanos, hindus, vietnamitas, canadenses, estado-unidenses, egípcios, afegãos ou seja lá de onde for para a Europa. Estas espécies, se estão aí, foram levadas por europeus.

Claro, a disseminação de espécies pela Europa se deve também ao aquecimento global. Hoje espécies tropicais encontram condições de vida antes inexistentes em terras tão ao norte. Há periquitos em Londres hoje. O transporte acidental também é, e foi, imenso.

Portanto, se este texto foi criado pensando no Brasil, lamentemos a imensa desconsideração dele com a realidade dos países que sofreram a invasão das espécies levadas para cima e para baixo pelos europeus. Perdão, senhor Lapouge. O convido a passar mais alguns anos no Brasil ou Argentina, na Austrália ou no Taiti, e ver o que as espécies invasoras fazem com os ecossistemas destes lugares.

E, em sua responsabilidade como correspondente e divulgador, não agir como invasor, mas como parte destes povos que o acolhem.