9.9.10

Little diferences




A Cidade do Cabo e região é mais ou menos como a parte sudeste do Brasil: mais moderna e aberta do que o resto do país, sofre com certas regionalidades e preconceitos de primo rico. Camps bay, por exemplo, a vila Olímpia da cidade, e repleta de descendentes de ingleses que nao suportam "aqueles outros pobres", os negros e os descendentes de Holandeses.

A impressão é a seguinte: os vilões de filme, aqueles racistões que no final da aventura explodem, são em geral descendentes de holandeses. Os descendentes de ingleses não ligam tanto pra sua raça, contanto que você não seja pobre (isso é muito paulista de classe mérdia da parte deles). Ainda bem que isso não é uma regra, e sim as exceções que marcam o estereótipo. Dado que a Cidade do Cabo é predominantemente inglesa, aqui tem um problema de raça menor do que no resto do país.

As diferentes etnias negras recuperam aos poucos seus traços culturais diferenciados, após anos tratados como iguais. Em geral, lidam com o problema como "nós vivendo com eles", embora existam importantes líderes que tratem o problema pelo péssimo ângulo do "eles invadiram nossa terra". Os Zulus e os Xhosa (etnia da qual descende Mandela) aparentam lidar melhor com a questão de sua própria cultura aqui na região.

Nao obstante essa bagunça absolutamente diversa da nossa brasilidade, existe uma série de diferenças corriqueiras engraçadas entre os mundos. Estou em um bairro bem legal, mas todo o comércio é de bairro, nada como as grandes lojas de Santana ou megamercados. A frota de carros tem uma variedade que os brasileiros, viciados na antiga autolatina, levaremos anos para alcancar. A comida parece anos-luz atras da nossa. Nada de comida por quilo ou pequenos e bons restaurantes. Ou é fast-food, ou é chique. E quase tudo é "típico": grego, japonês, coreano, português, hindu... mas nada sul-africano!
Mas tem um crocoburguer que estou ansioso pra ir comer!

7.9.10

A aula

Vou sofrer menos do que pensava para entender, mas mais para me fazer entender.

As aulas obrigam a falar e a mente hoje doeu menos do que ontem para criar frase em inglês, eh eh. Segundo a professora Linda, a inglesa, depois de cada aula eu tenho o seguinte "out-homework": andar pela orla para espairecer e dar tempo á mente para absorver a aula sem doer. E não é que funciona?

Mas claro que o mundo nos avisa, e ao fim de quatro horas de aula ontem, durante o almoço, um Íbis verde escuro passou do mau lado forrageando numa boa pela grama.
Para quem não lembra, o Deus da escrita, da comunicação e da sabedoria no Egito, Toth, tem a cabeça de um Íbis.

Dormi mais tranquilo om isso!

E feliz dia da independência! Estou em um país que está a menos de vinte anos em uma situacao normal, mas aqui as pessoas param para você atravessar a rua, não jogam papel no chão e sabem que felino grande vivo vale mais do que felino grande morto.

Tem algo de errado na forma como o Brasil se tornou uma democracia e ganhou sua independência. Nós não consideramo-nos donos do nosso país. Aquele espírito de ser apenas um visitante nos faz tratar nossa abençoadíssima Terra como apenas um quarto de motel fuleiro.

Cidadania é artigo de série aqui, e isso me dá ganas de trucidar cada cretino que joga papelzinho no chão.

5.9.10

Primeiras impressoes

Ok, quando eu voltar pra casa a primeira coisa a fazer sera colocar acentos nisso tudo, ja que os teclados daqui nao tem esse luxo.

Estou a doze horas em Capetown. por enquanto me parece sossegada, mas ja notei que nao se pode ficar de bobeira, mais ou menos como andar pelo centro d de São Paulo. O lugar é bonito pacas, mas ainda nao me inspirei para escrever de uma forma mais critica e/ou poética.

Por enquanto, o que me chamou a atencao foi: 1 - o Mandela é cultuado aqui. Mesmo! Eu nao fazia ideia de que a coisa era tão forte. 2 - as pessoas estao amando futebol e a copa do mundo foi incrivel para todos, mas os turistas brasileiros tiveram má fama (atrás dos franceses e dos argentinos, kkkkk) 3 - até que me viro bem em inglês 4 - as tomadas são bizarras, com um padrão exclusivo daqui 5 - tem algo de muito americano do interior no jeito das coisas aqui, aquele lance meio brega, e meu café da manhã foi de ovos com torrada, café solúvel e creme de amendoim 6 - tem gaivotas gritando o tempo todo 7 - nas pedras da praia nao tem caranguejo!!!! 8 - negros tem mais sotaque africano do que brancos, e este aumenta com a idade. O jeito de falar daqui dos negros mais jovens e dos brancos parece o americano, mas os brancos idosos que vi falam Africaner. Os negros sao mais simpáticos do que os brancos, ou pelo menos mais abertos a conversar.

Vamos ver se consigo atualizar isso aqui com alguma frequência. E agora, preciso arrumar um adaptador e um recarregador de pilhas 220!

PS: o Kalahari visto do avião foi incrível.
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1.9.10

Hephaestus!




Hefesto é o deus do fogo, do trabalho, dos ferreiros. E talvez o menos comentado de todos os doze grandes Deuses Olímpicos. Dia 23 de agosto foi o dia dedicado a Ele, e foi estranha a forma como este Deus se imiscuiu em tudo aquilo que fiz este mês.

Tudo surgiu quando eu pensava nos ciclopes. Havia acabado de ler pela enésima vez a descrição resumida das aventuras de Odisseu (também e mais popularmente chamado pelo nome latino Ulisses)onde ele cega o monstro que prendeu e aos poucos devorava sua tripulação. O ciclope Polifemo é apenas um de muitos de sua raça. A maioria trabalhava nas fornalhas sob os vulcões do mundo, comandados por um Deus.

Na fornalha que Hefesto fez com o monte Vesúvio (ou o Etna, conforme a versão) criou as mais fantásticas armas já vistas. O escudo e os raios de Zeus, o tridente de Poseidon, a armadura de Héracles e praticamente todos os instrumentos de poder dos Deuses. Como símbolo do esforço, Hefesto mostra seu valor através de sua obra mesmo tendo sofrido preconceito e humilhações de outros Deuses. Hefesto é descrito como feio e coxo, em um lugar onde todos são a perfeição.

Pouco a pouco, Hefesto fez cada um dos Deuses lhe deverem favores. Se vingou quando sua esposa Afrodite o traiu com Ares, Deus da guerra, e acabou se unindo a uma das três graças.

E embora Hefesto pouco apareça na maioria dos mitos, é por ser ele o único Deus que trabalha com uma equipe, que cria obras como as fantásticas criadas de metal que serviam em seu palácio de bronze e as já citadas armas e proteções de Deuses e SemiDeuses. Hefesto é o mais próximo dos humanos, e unir o poder sobre o fogo, a criatividade, a ciência e o trabalho é mais humano ainda.

Ares, quando consegue os favores de Afrodite, representa o garotão que está dando sopa quando o marido está afogando-se em trabalho? Ou Hefesto é aquele que trabalha demais por quem não o merece? Afrodite é uma mulher abandonada ou traidora?

Hefesto revela as mais poderosas criações humanas, o poder da persistência, do fogo que brota ao nosso redor e pode ser convertido em nossa ferramenta para galgar o Olimpo de nossas alegrias.

Ele é, sim, o Deus do fogo, do trabalho (também em equipe), do esforço. Ele nos traz a luz quando bate com seu martelo na forja e cria os raios. De sua sabedoria, ciência e força dependem os demais Deuses para operarem no plano dos mortais. Hefesto é o Deus que se manifestou para a criação da era da máquina, que trouxe o computador e as naves espaciais para o homem. Ao lado de Prometeu, um Titã, é o patrono daquilo que faz dos homens os senhores de si mesmos.

Basta que eles aprendam também que o trabalho é contrário à guerra.

5.8.10

Onde os fracos não tem vez (2º parte).

O título do filme oscarizado é melhor do que o final do mesmo (é um PUTA filme... até seus dez minutos finais), e de novo serve como título de uma postagem anti-fraqueza.

Vai estrear o mais-do-que-esperado filme novo de Sly (para quem não esteve no planeta cinema recentemente, Sly = Silvester Stallone). O seu longa "Os mercenários" reúne a nata da pancadaria (com direito a participações especiais de Schwarzenegger e Bruce Willis) para fazer um novo filme dos anos 80: Bando de durões com armas gigantes lutando contra um país emulado de Cuba.

É, essa é a trama. Uns mil filmes usaram-na naqueles longínquos tempos de guerra fria. É de espantar que os americanos ainda tem medo dos ditadores da América Latina, agora repaginados como Chávez e Zelaya. Estamos em uma nova fase de horror ao comunismo ou é impressão minha?

Pancadarias cinematográficas a parte (E o comentário mercadologicamente infeliz de Stallone sobre o Brasil, onde filmou, que se dane. Provavelmente alguém deve ter oferecido a ele um sagui por preço de banana como qualquer ambientalista sabe que é comum acontecer pelo país) o filme destila todos os preconceitos machistas, americanóides e militares já zoados tantas vezes, e certamente o filme não deve se levar a sério. É de bom tom lembrar que Stallone não é nenhum idiota (ele já foi indicado ao Oscar bem mais do que você supõe, e suas escolhas por um tipo de filme mais raso não tem nada de ingênuo. Pelo contrário, serviam a um objetivo político bem claro). Deve ser divertido, como sempre foram os filmes de pancadaria da época.

Há uma nova onda classemédia/paga-pau-neoliberal/preconceituosa contra a esquerda no mundo. Desde a crise econômica mundial, que abalou a idéia de que o mundo ia bem, obrigado do jeito que estava, e do sucesso de países governados de modo não-alinhado com a idéia de capitalismo modelo americano (Os países do BRIC em especial)que ficou cada vez mais evidente um movimento de desqualificação dos princípios que escapem ao conservadorismo político à americana.

Isso se reflete em gente que nunca pôs os pés em uma favela e acha que devemos explodir todas. Que acha que fome, desemprego e maus-tratos a crianças e animais acontece por que "aqueles outros, os pobres" são criaturas inferiores. São aquelas pessoas que querem criar leis que proíbam mendigos de ter cachorro, acabem com iniciativas de tirar gente da miséria absoluta às custas de impostos e que não votam em partidos verdes por que acham que verde e vermelho são cores muito parecidas entre si.

Isso só reflete o básico: não existe mais esquerda ou direita. O principal partido da oposição ganhou votantes de direita tendo em seu próprio nome princípios de esquerda, mas rodou e rodou para cair no colo do partido que foi a situação na ditadura dos anos 70. O partido da situação ignora que seu nome deveria incluir trabalhadores que pagam imposto demais por serviços de menos e que seu maior aliado já nada mais tem da oposição que lutou por uma nova constituição e por diretas já nos 80.

Stallone veio ao Brasil, explodiu tudo em uma ficção, disse que aqui oferecem um macaco e sorriem quando você faz isso e vai ganhar uma grana com as bilheterias daqui.

Agora, nós devemos questionar por que no país dele terroristas explodem tudo de verdade, fizeram com que seus habitantes votassem em um homem das cavernas a mando de empresas privadas por dois mandatos consecutivos (e cujo sucessor está sendo crucificado por lutar contra estas mesmas empresas, vide o vazamento de petróleo no golfo do México) e mesmo com tudo isso ainda mandam a economia mundial pro inferno mesmo sem gastarem um tostão ajudando o próprio povo a terem saúde gratuita ou promovendo a recuperação financeira de quem precisa, mas torrando milhões para salvar bancos, montadoras e seguradoras.

Quer saber? Se fosse o Chuck Norris, ele tinha sozinho destruído a ditadura, ganhado a mocinha, recriado a ordem econômica mundial, oferecido saúde gratuita e comida para o mundo todo, acabado com a devastação florestal e ainda dado um pau em um asteróide gigante cheio de aliens que estava em rota de colisão com a Terra.

26.6.10

Africa



Toto

I hear the drums echoing tonight
But she hears only whispers of some quiet conversation
She's coming in 12:30 flight
The moonlit wings reflect the stars that guide me towards salvation
I stopped an old man along the way
Hoping to find some long forgotten words or ancient melodies
He turned to me as if to say, "Hurry boy, it's waiting there for you"
(Chorus)
It's gonna take a lot to drag me away from you
There's nothing that a hundred men or more could ever do
I bless the rains down in Africa
Gonna take some time to do the things we never had
The wild dogs cry out in the night
As they grow restless longing for some solitary company
I know that I must do what's right
Sure as Kilimanjaro rises like Olympus above the Serengeti
I seek to cure what's deep inside, frightened of this thing that I've become
(Chorus)
Hurry boy, she's waiting there for you
It's gonna take a lot to drag me away from you
There's nothing that a hundred men or more could ever do
I bless the rains down in Africa, I bless the rains down in Africa
I bless the rains down in Africa, I bless the rains down in Africa
I bless the rains down in Africa
Gonna take some time to do the things we never had

27.5.10

Lembrar é viver.



Anteontem, perdi duas horas da minha vida assistindo a regravação de “Fúria de titãs”, mais um filme caríssimo cujo custo poderia ter alimentado a Somália por alguns dias e que não será lembrado nem mesmo no mês que vem.

Para quem esteve fora da Terra nos últimos decênios, “Fúria de Titãs” é um clássico da sessão da tarde que mostra, com alguma liberdade poética para a mitologia, a saga de Perseu para conseguir a mais perigosa arma já imaginada, a cabeça da Medusa, a fim de evitar que a cidade de sua amada Andrômeda seja destruída pelo Kraken (no mito, é Cetus. Kraken é um nome de monstro do mar “emprestado” da mitologia viking. Imagino que como a palavra “Cetus” originou a moderna alcunha científica “Cetáceo” para o grupo das baleias e golfinhos ficava muito antipático chamar um monstro por esse nome hoje em dia).

Perseu é um herói mítico perfeito no filme. Decidido, bonitão, ético, inteligente, consciente de sua responsabilidade e corajoso até o último fio de cabelo. O mito trata do desrespeito dos homens para com os Deuses, retratados com emoções e motivações bem humanas. Um elenco divino encabeçado por verdadeiras divindades do cinema: Zeus é interpretado por ninguém menos do que Sir Laurence Olivier. Hera, pela belíssima senhora do teatro Claire Bloom. Tétis, pela genial Maggie Smith e Afrodite por... Ursula Andress! Aos 44 anos, Ursula ainda era a atriz mais próxima de um ideal Afroditeano de beleza que vocês podem imaginar.

O centro do filme é o fato de que um filho cruel e mimado (Calibos) pede a sua Mãe-Deusa que o vingue após ter sido humilhado por Perseu. Todo o conflito se desenrola disso. A cidade onde vive Andrômeda cairá pois Perseu, sendo protegido de Zeus, não pode ser diretamente atacado. Tem seus pepinos, como a coruja de metal encaixada acréscimo fofo, a presença do Pégaso vindo de outra lenda ou o visual esquisito do Kraken, mas em compensação tem detalhes maravilhosos como a homenagem ao teatro grego delicada e poderosamente feita pelo personagem de Burgess Meredith, o filósofo que ensina Perseu a pensar.

O filme atual, que ainda por cima foi feito de forma convencional e depois foi transformado para a moda do 3D com resultados horríveis, muda toda a questão mítica subjacente. Os deuses (com minúscula) dependem das orações dos mortais para terem poder (o conceito de egrégora é manchado aqui com tintas primárias). Um deus invejoso, Hades, do poder de seu irmão Zeus manipula tudo para que os mortais temam a ele e assim ele fique poderoso o bastante para dominar o Olimpo. Detalhe? O diretor do filme se declarou fã do desenho “Cavaleiros do Zodíaco”! Olha só que credencial ele tem para falar de mitologia grega. Os deuses, de fato, parecem estar sempre vestidos com uma armadura comprada numa lojinha de 1,99. Nem mesmo as armaduras dos cavaleiros eram tão pouco imponentes.

Hades virou vilão depois dos tais cavaleiros, do famigerado desenho “Hércules” que a Disney cometeu enquanto afundava e por que a cabeça cristã-maniqueísta quer que o Deus das profundezas e do reino dos mortos seja um equivalente ao Diabo.
O problema é que as pessoas não entendem que a divisão do reino dos céus, dos mares e do subsolo entre Zeus, Poseidon e Hades nunca foi ruim para nenhum deles, e que ser o Deus dos mortos não é uma desonra, nem Hades é um Deus adepto de abuso de poder divino (quesito no qual Zeus extrapola inúmeras vezes e nem por isso é demonizado). Aliás, Hades é um Deus apaixonado e fiel ao seu amor por Perséfone, como prova o fato de termos invernos todos os anos.

O que fica no filme? A velha babaquice americana contra a opressão dos poderosos, da livre-iniciativa, do poder do indivíduo e por aí vai. Aqui, os mimados são recompensados! Perseu é um macaco treinado (o Sam Worthington vai ter que ralar para apagar esse papel do currículo) arrastado pelas situações. As cenas não tem conexão. Os ingredientes colocados lá só para dar alguma cor no filme não funcionam (o que são aqueles soldados xerocados de “300 de Esparta”, a presença de Io num mito que não tem nada a ver com ela, os tais Djins caídos de pára-quedas da mitologia árabe e que não fazem nada ou a dupla de caçadores?).

E o pior: o monstro. Metade do filme é gasto para criar a expectativa de que o Kraken é a encarnação da destruição. Quando ele vai surgir, são horas até ele aparecer por inteiro. Se o filme antigo causa risos hoje com sua técnica de stop-motion (que ainda assim fez uma Medusa realmente apavorante e não aquela lambisgóia modernosa) pelo menos eles eram honestos com o monstro. O atual vai surgindo, primeiro tentáculos, depois pinças, cascas e então...! Uma tartaruga gigante dentuça! Eu quase morri de rir. O desenhista de produção devia ser enforcado por quem o pagou.

Moral da história. Peguem o pirata para ver e morram de rir. Baixem pela internet, mas nunca, em hipótese alguma, dêem algum lucro pra quem fez aquele filme. E vão assistir o antigo, que acaba de sair em DVD em uma nova edição caprichada, que vocês devem comprar legalmente na sua loja preferida. Esse merece seu dinheiro.