Depositário de comentários, sede do caos, falta do que fazer e onde mostrar, outdoor ao inverso e convite ao velho e bom papo de bar. Tudo isso e mais um pouco de Vida e Cenas, e história a contar.
8.2.08
In nomine
É um modo de fazer brotarem novas flores no campo de Imatéria. E não, não vai ter texto para todo mundo. Eu conheço gente demais para isso. Mas certamente há algo a ser dito inspirado por certos nomes.
E não há ordem, a não ser aquela dada pelas musas.
Quem estará por aí?
20.1.08
IPEC
Não sei se você já sabe, mas 99,99% dos biólogos sentem um arrepio de luxúria ao ouvir "estudar golfinho". No final das contas, quem pôde ir foram poucos.
O tal maluco, o Fernando, estava ali como representante de um instituto que nascera há talvez umas duas ou três horas antes. Dedicaria-se ao estudo das questões ambientais e, posteriormente, sociais da região de Cananéia.
O lagamar, área de estuário gigante na divisa do Paraná com São Paulo, é absurdo. a biodiversidade dali faz inveja a provavelmente todo o continente europeu e à América do Norte. Resultado óbvio, todos se apaixonaram pelo lugar e também pela idéia daquele povo que tocava um instituto de pesquisas apenas para aquele pedacinho de mata, a maior área de mata atlântica preservada onde já pisei.
Desde então, voltei à região algumas vezes. Fui e voltei à zoologia, minha área de paixonite inevitável. Qualquer pessoa que queira-me como amigo sabe que eu não hesitaria um instante se fosse convidado a ficar 3 meses no meio do mato olhando bicho. E sabia do que acontecia ao pessoal do IPEC. Fiz outras idas até lá com aquele povo (A melhor tainha e camarões que já comi foram graças a eles). E ver algo que vi no início manter-se de pé me manteve são durante alguns anos de afastamento dos trabalhos mais saudáveis da vida.
Semana passada fui até Cananéia novamente. Afora o fato de ter sido cercado por áreas de calamidade pública, ter perdido a placa do carro com buracos e lama, exigido demais da suspensão e calotas da pobre Ranilda (o carro) e visto muita, mas muita chuva o tempo todo, pude fazer uma visita até o IPEC.
Como? Passando pela cidade vi uma placa em uma das casas antiguíssimas do centrinho da cidade. Uma sede de apoio à pesquisa. Pôsteres nas paredes e pilhas de trabalhos espalhados pelas estantes me mostravam que os estudos iam bem, e logo soube que não apenas uma casa para ajudar aos pesquisadores funcionava, mas também um centro de cultura caiçara tocado pelo IPEC, onde se davam os cursos, memória e estímulo ao mundo bravo e em risco de extinção dos moradores tradicionais do lagamar. Fui muito bem recebido apesar da queda de pára-quedas por ali, e saí com um enorme sorriso no rosto de ver uma coisa que me foi apresentada como sonho estar a pleno vapor e apesar das dificuldades de fazer ciência em terras tupiniquins manter uma produção e uma respeitabilidade prática!
Parabéns, Fernando, Gica, Letícia, Emygdio, Fri e todos que conheci soprando a traseira do "lobo-marinho" para economizar combustível. Que afinal seja mais e mais daqui para a frente, e repetindo, não custa chutar o pau da barraca e fazer das tripas coração para fazer sonhos andarem. Eles começam a andar sozinhos antes de precisarmos sofrer para vê-los.
Para quem quer saber mais:
http://www.ipecpesquisas.org.br/
25.12.07
White Christmas
Falei para a marininha que o natal é uma forma de descarregar todo o espírito kitsch, brega e exagerado de americanização de nossas vidas antes do ano acabar, deixando espaço livre para uma comemoração de ano-novo que emenda no carnaval e se exprime enfim como nossa própria forma de ser no mundo.
Portanto, o natal é um expurgo, de certo modo. E daí natal ser comemoração familiar e ano-novo ser farra. É início, e queremos começar com o pé direito, e nem sempre começar com a família exprime isso tão bem.
Eu ainda não sei onde vou ver o relógio bater as doze badaladas do dia 31 e primeira balada do dia 1, mas tem que ser em sampa (viajar num feriado assim é atestado de masoquista) e tem que ser novo.
Convites? rs
11.11.07
Da inexpugnável maneira demirragena de ver o universo
Desde os primeiros contatos com os demirrageos, se tem colocado hipótese sobre hipótese sobre como eles pensam para apresentarem o comportamento bizarro que apresentam ante os viajantes que com eles se encontram. Sempre de bom humor durante sua vida cotidiana, o que é demonstrado pelos diversos representantes de nossa casta que com eles já conviveram, quando se vêem ante um passante qualquer se colocam a urrar como se tomados por uma fúria descomunal e se colocam a correr atrás de suas canelas, não raro mordendo-os com ferocidade e causando ferimentos que, embora jamais sejam graves, sempre são dolorosos e deixam as cicatrizes características de suas arcadas dentárias poderosas.
Talvez uma melhor compreensão do fenômeno e de nossas opiniões sobre isso prescinda de uma nota historiográfica sobre este povo e seus primeiros contatos conosco.
Os demirrageos foram injustamente tachados de povo primitivo e digno de extermínio, e durante muitos ciclos foram abatidos pelos primeiros exploradores de seu território.
Apenas após anos de invasões injustificadas a suas clareiras e matas alguém se preocupou em entender aquele povo. Como é de praxe de todo povo que chega a um novo território, declaramo-nos donos daquela região e superiores aos seus antigos habitantes. Quando se viu que nada havia de interesse econômico na região (ainda não havia iniciado-se a corrida aos minérios de raspina, abundantes na região e atual fonte de renda dos demirrageos no comércio interpovos) abandonou-se o interesse comercial e iniciou-se o científico. Alguns corajosos antropólogos interpovos se dispuseram a fazer observações acerca deste povo, tentando não ser notados e entender quem eles eram. Descobriram um povo dotado de imensos dotes artísticos, com obrigações artísticas inerentes a sua cultura (não há demirrageos que não seja artista em alguma modalidade) e uma liberdade de expressão e pensar que não encontrava paralelo em nenhum outro povo. Ainda mais, se descobriu que se alimentavam essencialmente de algas e peixes, que coletavam em rios sempre distantes ao menos mil passos da aldeia.
As aldeias dos demirrageos são um espetáculo à parte. Não existe unidade arquitetônica alguma. As casas são dispostas em círculos, e nas aldeias maiores, onde não cabem todas as casas em um único círculo, diversos outros são montados em uma superestrutura que lembra um conjunto de anéis. Todos participam da construção de cada casa, que é desenhada por seu dono, e este é o único que não faz nada durante a construção. São feitas de palha, madeira, pedra, barro ou mesmo cavadas no chão, em rocha pura ou montadas sobre palafitas inúteis.
Com o tempo, os nada discretos cientistas acabaram sendo aceitos como parte da paisagem por alguns demirrageos, que os diferenciavam dos antigos exploradores de minérios. E não mais corriam atrás deles com os caninos avantajados à mostra. E então se fez um primeiro contato interpovos. Qual não foi a surpresa quando se notou que era um povo de incrível, embora excêntrico para nossos padrões, senso de humor. O dialeto demirrageano possui mais de duzentas palavras para brincadeira ou piada, cada qual discriminando um tipo de chiste. Grunhem bobagens uns para os outros constantemente, e nunca se irritam uns com os outros, a não ser com relação à construção das casas, quando se desafiam pelo seu gosto arquitetônico. Então, escolhem um árbitro, pois julgam ser desonroso decidir por si mesmos quem é o vencedor, e disparam uma sequência de esculhambações grosseiras um contra o outro durante cerca de um minuto.
Às vezes mordem os calcanhares do juiz.
Aquele que melhor ofender ao outro, com as poucas palavras ditas de baixo calão do dialeto e a imensa criatividade para ofender com palavras infantilóides, tem sua opinião acatada pelo outro, mas deve se submeter a, como prêmio, construir o telhado ou equivalente da casa sozinho.
As discussões são raras, portanto.
Os demirrageos ainda são conhecidos por não serem, em hipótese alguma, monogâmicos, e os cientistas que com eles conviveram por vezes se espantaram com os convites interpovo que receberam e as tocas cavadas no meio da aldeia para prática sexual. Embora existam, aparentemente, dois tipos de indivíduos, não há comprovação teórica de que sejam sexos diferentes. Nunca se dissecou um demirrageo, e as duplas são de indivíduos de mesmo tipo ou diferente de modo aleatório. Sabe-se que independe de estar com um indivíduo do tipo oposto para se dar a gravidez, com duração de cerca de seis meses e postura subsequente de até três embriões, que serão dependentes de seu genitor por até dez anos, quando planeja sua casa e se dispõe a convocar a aldeia para construí-la.
Externamente, os demirrageos tem uma aparência que não é muito diversa dos de nossa casta, apenas diferindo pelo fato de possuírem coloração alaranjada, com extremidades azuis que se camuflam com a vegetação, e a presença de dois olhos a mais nas laterais da cabeça. De resto, o plano de membros inferiores, tronco, membros superiores, espinhos costais, leques escapulares membranosos e cabeça mediana com órgãos dos sentidos é igual, exceto com relação à mandíbula forte e protuberante (o nariz adunco e afilado de nossa casta é extremamente atraente para os eles, desprovidos desta ornamentação; mas nossos olhos pequenos, metade do tamanho dos olhos demirrageos que alcançam até oito centímetros de diâmetro, é-lhes pavoroso). E a pelagem superior, via de regra, segue certas semelhanças com o gosto arquitetônico de seu possuidor. Os cabeleireiros dos demirrageos são conhecidos interpovos.
De qualquer modo, não há por quê supor que são primitivos, mas simplesmente não haviam alcançado um nível tecnológico avançado nos mesmos aspectos que as demais castas, embora, sua medicina se aplique a todo o interpovo .
19.8.07
Totem
Nela, não há espaço para cordeiros. Na vida, o belo da existência é a beleza da superação. Não há espaço para aquilo necessitado de um pastor a nos alimentar, guiar e a quem vez ou outra é concedido o direito de matar uma de suas rés em sacrifício para se alimentar.
Todos os povos ligados à vida em sua pureza e essência escolheram o totem de sua imponência, de sua força, de sua nobreza e coragem. A lebre, o corvo, o leão, a harpia... O elefante, o touro, a serpente... a onça, o boto, o cervo. Não há espaço para tolos teleguiados na vida. Não há lugar para quem não nada contra a corrente.
O tamanduá quando rompe o cupinzeiro crava suas garras no mamilo de Gaia e lá bebe o sumo da vida na forma de milhares de insetos. O cadáver destruído por vermes e carniceiros é resgatado ao pó de sua origem e volta ao ciclo de nutrição e retribui pela carne que teve. O grito de nascimento da baleia e o assobio de sua primeira respiração são os cânticos de agradecimento ao seu direito de enfrentar a vida e superar suas imperfeições, pondo-as à prova contra o substrato do existir.
Meus avatares não são os profetas da servidão. Jesus era de escorpião. Maomé deu suas lições a Che Guevara. Buda renasceu para lutar sem um tapa sequer como Gandhi, e venceu. É mais nobre o Para-atleta que o perfeito milionário do futebol italiano. Ali é a manifestação do Olimpo em sua plenitude, onde nasce um fulgor de luz, uma dádiva dos deuses e ergue-se a vida benigna. E onde as trevas gritam e sacodem a alegria de terem feito seu serviço de fazer erguer-se o herói.
A águia assume seu lugar ante o sol e abre suas asas sobre o continente, sobre o oceano, sobre o mundo. Ela abate os cordeiros, submissos a seu pastor. E ainda assim os pastoreados a invejam. Pois seus chifres de cordeiro são aparados. Pois ao que aceita seu papel de ovelha não é dado o direito de bramir e tomar seu lugar na montanha, nos picos mais altos de seus ancestrais selvagens e pagãos.
23.7.07
Para raros.
1 – É possível ter uma conversa fantástica com pessoas que você nunca viu na vida, atravessando a noite entre o filosofar e o rir (muito). Mesmo na mais estranha das festas, com o pior dos vinhos, na curva do rio mais cheia de perdidos. E notar que assumida nossa amplitude de faces, fica mais fácil ser você mesmo e ser diferente para cada um de seus companheiros de mesa.
2 – É possível começar uma conversa com as pessoas mais próximas, sobre os assuntos mais relevantes, e simplesmente se saturar disso. Ver suas preocupações e assuntos serem transformados em escada para falar de problemas e aflições superficiais dos outros, e absolutamente ser imperceptível a seu interlocutor notar que naquele dia específico você não é capaz de ser conselheiro, piadista ou penico de nada. Que você não quer ser a si mesmo naquele momento. Que não vai dar apenas o de sempre.
Dito isso, voltemos.
Há feras dentro de nós. Lobos e macacos. Disputam o cerne de cada humano desde o dia em que a humanidade nasceu. Divididos evolucionariamente entre sermos primatas coletores fortemente hierarquizados e caçadores ativos e coletivamente orientados, escapamos da trilha da seleção antes de termos uma resposta fácil sobre quem somos.
Nossos instintos de animal social são díspares. Abarcam modos de socializar em extremos muito afastados entre o lobo e o macaco. E vez por outra, temos a consciência de que há uma coisa em comum entre ambos:
Lobos e macacos possuem seus renegados.
Neste lobisomem que somos todos, agregando caracteres de carnívoro e de primata, experimentamos uma solidão interna dos perdidos, e descobrimos valores que definem os lobos que desejamos ao nosso lado e os macacos que queremos para fazer a catação mútua de piolhos. Às vezes, são ambos num mesmo indivíduo. Às vezes, e não há diferença de importância, quem temos ao nosso lado é só uma dessas coisas. E é igualmente desejado.
O que não suportamos é o lobo que não participa da caçada e espera pelos nacos de carne do grupo, o macaco que só pede para tirarmos seus incômodos e não tira de ninguém. Mas nossa cultura de ovelhas os acata. Você conhece o tipo. Ele está do seu lado quando você dorme, debaixo do seu travesseiro, e se você bobear, ele saltará para dentro de sua mente e o dominará. E sequer será percebido, pois sua vida é tão leve que te faz flutuar sobre os outros.
Ele espera do lado de cada um.
E aqueles de nós interessados em não ser submisso ao reles sobreviver vêem claramente este fenômeno. Vêem em si e vêem em outrem. Mesmo nos mais amados, nos que desejamos mais próximos, aparece e fere o jeito de ser dos espelhos, que só recebem as nossas cores e imagens, mas não oferecem seu calor. Os renegados vêem claramente os unilaterais pois, opostos a estes, sobrevivem sem estarem imersos no conjunto do grupo.
Eu soube que não estou livre de ser unilateral. Mas assim libertei-me e encontrei o alvo da crítica. Encontrei o incômodo causado pelo outro quando o vi em mim.
Cansei-me da unilateralidade. Não perderei os que me são caros, mas serei igualmente espelho: darei o reflexo do que me é ofertado, até prova em contrário. Valorizar o novo, que me vê hoje, sem os vícios de saber de um só de mim, em um só aspecto cômodo e imutável.
E, (feridos não tem ajuda) os apegados a um “eu” só inexistente na cabeça delas deixarei à sua própria sorte. E sei que me doerá.
A vida é mais que instinto. Acima do lobo, acima do homem das cavernas, acima do alienado da civilização, nossas asas se abrem e nos permitem ver onde podemos pousar e de onde devemos voar para longe. Acima do macaco e da contradição, temos arte.
7.7.07
Mil coisas
Isso dá nó na cabeça de qualquer um. Qual eu posto primeiro?